
O choque de custos no atacado vem chegando com mais força ao consumidor nos últimos meses, mas ainda deve pressionar a inflação em 2021, quando o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deverá furar a meta de novo. A avaliação é da equipe econômica para Brasil do Credit Suisse, que, com base em modelo preditivo do IPCA construído a partir do índice de inflação ao produtor, vê espaço para mais repasses.
Calculado pela Fundação Getulio Vargas (FGV), o Índice de Preços ao Produtor Amplo - DI (IPA-DI) subiu 33,89% nos 12 meses encerrados em novembro - uma alta muito mais forte que os 4,31% acumulados pelo IPCA no período. Como, no entanto, os componentes e pesos dos dois indicadores são bastante diferentes, a evolução do índice do atacado não é um antecedente fidedigno da inflação no varejo.
Para estimar o potencial de repasses do atacado que ainda chegarão às prateleiras em algum momento, os economistas Lucas Vilela e Solange Srour, do Credit Suisse, elaboraram um modelo que projeta a evolução do IPCA a partir do índice da FGV. Não é possível fazer uma relação linear entre as variáveis do IPA e do IPCA, mas, usando regressões, chega-se a um indicador que replica a evolução de todos os 52 subgrupos do IPCA com base na inflação ao produtor, observa Vilela.
Por esse exercício, o IPCA acumulado em 12 meses estaria 1,5 ponto percentual maior, diferença que está ao redor desse patamar desde maio. “Esse modelo não se propõe a projetar o IPCA mês a mês, mas sim a diferença entre os IGPs e o IPCA, que vai chegar em algum momento ao projetado”, explica Vilela. “Com o tempo, a distância entre um e outro vai ficando cada vez menor, como no presente caso.”
Segundo eles, vários itens contemplados pelo modelo estão com inflação mais elevada que a observada dentro do índice oficial. Os itens com maiores desvios, afirmam, são tarifa de eletricidade residencial, transporte público, serviços pessoais e aluguéis.
“Curiosamente, os preços desses itens foram ou congelados pelo governo durante a pandemia ou severamente impactados pelas restrições à mobilidade”, destacam. Economista-chefe do Credit Suisse, Solange acrescenta que o modelo captura não apenas o efeito primário da pressão de custos no atacado sobre o varejo, mas também os secundários.
“Não é verdade que os serviços são imunes à alta dos IGPs”, aponta ela, uma vez que reajustes em preços indexados de alguma forma a esses índices (contas de luz e aluguéis, por exemplo) fazem parte da formação de custos em setores de serviços, tais como educação e alimentação fora de casa.
Nas projeções do banco, os serviços terão alta de 3,7% em 2021, após 1,8% em 2020. A aceleração do grupo será explicada pela normalização da atividade do setor, que foi o mais afetado pela pandemia, mas também pelo impacto de custos maiores nos preços, observa Solange. O salário mínimo, que é referência para preços como mão de obra e empregado doméstico, será reajustado pelo INPC de 2020, menciona a economista.
“Ele será muito maior do que o que projetávamos há dois meses. Não é só a inflação do ano que vem, mas o repasse cambial e do aumento de commodities e a inércia vão acabar fazendo com que o IPCA do próximo ano seja maior”, disse Solange. Em suas estimativas, o indicador oficial de inflação vai aumentar 4% em 2021, superando a meta de 3,75% definida para o período.
E esse índice só será atingido após perda de fôlego da inflação em 12 meses, que, pelo cenário da instituição, vai alcançar um pico de 6,7% em maio. “Como a normalização de serviços e produtos industriais deve continuar e a inflação de alimentos provavelmente vai permanecer sob pressão, a inflação anual deve acelerar no primeiro semestre de 2021 e desacelerar no segundo semestre”, dizem os economistas.
No primeiro trimestre, avaliam eles, o IPCA seguirá pressionado pelo repasse do choque de custos ocorrido em 2020 devido à alta do dólar, à valorização de commodities e também ao descasamento entre oferta e demanda de insumos industriais. Assim, mesmo que a taxa de câmbio continue em apreciação, diminuindo a inflação medida pelos IGPs, ainda haveria espaço para reajustes adicionais no IPCA.
Os primeiros três meses de 2021 serão marcado por duas dinâmicas contrárias, diz Vilela: os serviços tendem a recobrar fôlego, enquanto os alimentos, que devem terminar 2020 com alta de 18,3%, vão começar a mostrar descompressão. “Como acreditamos que todo esse aumento de custos de 2020 será repassado ao consumidor, nossa expectativa é que os serviços e custos mais altos vão se sobrepor à desaceleração de alimentação no primeiro trimestre.”
Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Arícia Martins - De São Paulo, 21/12/2020

