O bom humor dos investidores globais, que tem impulsionado os ativos brasileiros nas últimas semanas, pode ter um efeito colateral por aqui. O risco é de que essa animação crie uma complacência com os graves problemas do país e amenize o senso de urgência em resolvê-los.

Esta é a avaliação do economista-chefe da BlueLine Asset, Fabio Akira. Nesta segunda, durante a Live do Valor , ele disse que o Brasil evitou “cair no abismo” no curto prazo, mas não se afastou do risco. “No fim das contas, parece que o governo decidiu não pular no abismo ao não renovar auxílios emergenciais sem endereçar a sustentabilidade deles no médio e no longo prazo. Isso reduziu um pouco o risco fiscal de curtíssimo prazo, mas os problemas de médio e de longo prazo não foram endereçados.”

Akira diz que também faltou abordar o processo de transição para o fim do auxílio emergencial, o que acaba deixando o país em uma situação fiscal bastante complicada na virada do ano. “Não é tão drástico porque tem fluxo de pagamento em janeiro, mas a transição ao longo de janeiro vai ser bastante dura”, afirma. Para ele, esse é um fator negativo do ponto de vista de crescimento, pressão política e social. Além da própria inabilidade do governo, a dificuldade de coordenação é influenciada pela mudança de comando na Câmara e no Senado, diz.

Para Akira, o foco e a inclinação deste governo em aprovar medidas fiscais estruturais parecem ter diminuído. “Parece que a segunda parte do mandato vai ser bem menos focada nas questões fiscais e estruturais. Portanto, a chance de ter aprovação de reformas de médio e longo prazo, como reforma administrativa, PEC emergencial, PEC dos fundos públicos, de desindexação, diminuiu bastante.”

Essa mudança afeta, ainda, o papel do ministro da Economia, Paulo Guedes, no governo. “Eu ainda acho muito importante o papel do ministro Paulo Guedes, mas parece que, em função de tudo o que está acontecendo no resto do governo, o papel mudou de um ministro mais propositor e que determinava a agenda econômica para um ministro mais na defensiva e que tenta manter risco fiscal minimamente controlado”, explica.

Outra consequência da falta de visibilidade fiscal é o investimento ainda moroso no país, o que afeta o crescimento. Akira projeta expansão de 3% do PIB em 2021 — aquém da expansão de 5% a 5,5% esperada para a economia global. “Não é totalmente desprezível, mas é muito fraco com comparação com o crescimento global.”

Apesar dos problemas locais, o que tem favorecido os ativos brasileiros é o ambiente global. De acordo com Akira, o cenário de liquidez global, retomada cíclica da economia e o menor risco geopolítico – devido ao desfecho das eleições nos EUA – sustentou a busca por ativos emergentes nas últimas semanas. “Ativos que estão mais baratos, não muito congestionados de investidor estrangeiro e que tenham relação com o ciclo global de crescimento são beneficiados.”

Um dos riscos seria um possível erro na política econômica em países desenvolvidos e na China que apontem para uma normalização ou redução de estímulos muito prematura. “Foi o que aconteceu na crise financeira de 2008 e 2009, com ‘taper tantrum’, quando o banco central americano sinalizou que iria comprar menos ativos e o mercado não reagiu bem. Se houver uma redução um pouco mais prematura da liquidez, aí os fundamentos mais alinhados ou menos alinhados farão a diferença dentro dos emergentes.”

Isso seria grave para o Brasil, porque é justamente o ambiente de juros baixos no mundo que ajuda a dar alguma estabilização para a relação dívida/PIB no Brasil. “Se houver erro de política econômica do BC americano, vai ser muito difícil o BC manter juros em nível extremamente baixos por muito tempo. Aí entra a bola de neve da dinâmica da dívida pública, em que não só o resultado primário é largamente negativo, mas também a conta de juros começa a crescer”, afirma.

Em seu cenário básico, o economista acredita que o processo de normalização da política monetária se dará de forma bastante gradual e terá início no ano que vem. Um processo que deve começar antes, porém, é o de alteração na comunicação do BC, tendo em vista que a janela móvel de 12 meses da inflação vai acelerar. “Podemos chegar a ver o IPCA em 6,5% no segundo trimestre e, nessa hora, o BC fará pequenas modificações na comunicação”, afirma Akira. Para ele, o “forward guidance” deve ser retirado ou na reunião de março do Copom ou no encontro de maio.

“Ao longo do segundo semestre, vamos começar a ver uma política bem gradualista de normalização de taxa de juros. Dá para terminar o ano com a Selic em 3,5%”, diz.

 

Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Victor Rezende e Lucas Hirata, Valor — São Paulo, 21/12/2020