Fundamentos econômicos mais favoráveis têm permitido a retomada mais consistente do mercado imobiliário nos últimos meses. O setor tem sido favorecido pela taxa Selic em patamar historicamente baixo e pelo controle inflacionário, que permitem melhores condições de crédito. O quadro, somado à melhora gradual do mercado de trabalho e ao patamar ainda deprimido dos preços de imóveis, tem se refletido em recuperação da demanda por imóveis.

O forte ajuste de estoques, aliado à redução dos distratos, tem permitido a recuperação dos lançamentos imobiliários. Dados do Monitor da Construção Civil (MCC), conjunto de indicadores que mede a atividade da construção imobiliária, elaborado em parceria entre a Tendências e a Neoway, empresa líder na América Latina de Big Data Analytics, apontam para melhora mais consistente dos lançamentos de imóveis desde meados de 2018.

O Índice de Atividade da Construção Imobiliária - Lançamentos (IACI-L), que mede a metragem quadrada lançada em obras residenciais, comerciais, turismo e outros, com abrangência nacional, acumula crescimento de 26% até setembro de 2019, na comparação anual, após avanço de 13% no ano passado. Apesar das elevadas taxas de variação, os lançamentos permanecem em nível baixo - os dados recentes mais positivos ocorrem após seis anos consecutivos de retração do IACI-L.

A retomada dos lançamentos, entretanto, registra dinâmicas divergentes entre os tipos de obras: o desempenho positivo do IACI-L tem sido puxado, especialmente, pelos lançamentos de empreendimentos residenciais, que acumulam avanço de 27,1% até setembro desse ano. Os lançamentos comerciais, por sua vez, permanecem em patamar deprimido, sem sinais claros de retomada. Ainda que alguma melhora tenha sido observada no primeiro trimestre deste ano, quando houve alta de 50,7% na margem dessazonalizada, a dinâmica um pouco mais favorável registrada no início do ano foi totalmente revertida nos últimos resultados.

Dados do MCC também apontam que a retomada dos lançamentos, antes mais restrita à capital paulista, tem se disseminado a outras regiões. À exceção do Norte, todas as regiões acumulam crescimento dos lançamentos, considerando dados até setembro. No Sudeste, que registra avanço de 14,8% até setembro, a retomada tem sido puxada, especialmente, pelo Estado de São Paulo, mas no Rio de Janeiro também já é possível observar sinais iniciais de melhora dos lançamentos.

A retomada observada dos lançamentos imobiliários tem se refletido, gradualmente, em melhora da atividade do segmento. Dados do MCC para o Índice de Atividade da Construção Imobiliária (IACI), que mede área em construção (em fase de fundação, estrutura ou acabamento) de obras imobiliárias residenciais, comerciais, de turismo e outros, com abrangência nacional, apontam para crescimento de 10,4% até novembro, na comparação anual.

Reação dos lançamentos, antes mais restrita à capital paulista, está se disseminando para outras regiões

O desempenho positivo está relacionado à recuperação das fases iniciais da atividade imobiliária, que ocorre desde meados de 2018, em linha com a retomada dos lançamentos. Nesse sentido, os índices de fundação e de estrutura acumulam crescimento de 39,2% e 36,5% até novembro, respectivamente, na comparação anual. A retomada observada nas fases iniciais do ciclo imobiliário deve permitir recuperação mais consistente tanto do emprego no segmento quanto do consumo de materiais ligados à atividade das fases iniciais do ciclo, caso do cimento - o consumo aparente registra crescimento de 3,4% no acumulado até novembro, segundo dados do SNIC, resultado positivo após quatro anos seguidos de retração.

As obras em fase de acabamento, por sua vez, registram avanço mais discreto (+7,7% na mesma base de comparação). O ritmo de crescimento mais lento dessa fase relaciona-se à dinâmica do ciclo imobiliário, que registra defasagem de quase um ano entre as fases iniciais e a de acabamento. Dessa forma, a recuperação observada desde a metade de 2018 nas fases de fundação e estrutura deve permitir melhora do IACI-Acabamento ao longo dos próximos meses.

A retomada do mercado imobiliário tem se refletido nos indicadores de atividade da construção civil, ainda que de forma gradual. Tal cenário ajuda a explicar o desempenho positivo do PIB da construção nos últimos dois trimestres - altas de 2,4% e 4,4% no segundo e terceiro trimestres, respectivamente, na comparação anual -, após 20 trimestres consecutivos de retração.

Para os próximos trimestres, a atividade do setor deve seguir em processo de retomada, ainda que a ritmo discreto - perspectiva da Tendências contempla crescimento de 2,3% do PIB da construção civil em 2019, que deve ser seguido de alta de 4,2% em 2020. A dinâmica favorável do segmento imobiliário deve seguir impactando positivamente a atividade da construção civil, enquanto que, por outro lado, a recuperação dos investimentos em infraestrutura deve permanecer limitada no curto prazo.


Fonte: Valor - Opinião, por Samanta Imbimbo, Matheus Ferreira e Fernanda Baggio, 20/12/2019