As estimativas para o desempenho da economia brasileira no ano que vem continuam em queda, refletindo a avaliação dominante de que a recuperação da atividade será lenta. Os analistas ouvidos pelo Banco Central (BC) reduziram a projeção para a expansão de 2017 de 0,7% para 0,58%, o nono recuo consecutivo, a despeito de o presidente do BC, Ilan Goldfajn, ter indicado que vai acelerar o ritmo de corte da taxa Selic a partir de janeiro.
Em meados de setembro, a projeção era de um avanço de 1,38%. O pessimismo em relação à retomada se deve especialmente à percepção de que o nível de endividamento das empresas e das famílias afeta as perspectivas para o consumo e o investimento. Há quem acredite em variação zero como o Banco Safra e o Banco Fator ou mesmo numa nova contração do Produto Interno Bruto (PIB) no ano que vem, ainda que pequena caso da 4E Consultoria, que prevê recuo de 0,2%.
Para este ano, os economistas ouvidos pelo BC esperam uma retração da economia de 3,48%. O tombo da economia no terceiro trimestre e os indicadores ruins referentes a outubro e novembro têm feito os analistas continuarem a cortar as projeções para 2017, segundo o economistachefe do Rabobank, Mauricio Oreng. "Os números de 2016 indicam que a dificuldade para a recuperação é
maior do que se pensava", afirma ele, que projeta uma expansão do PIB de apenas 0,2% no ano que vem antes, estimava alta de 0,5%.
Para Oreng, o alto endividamento de consumidores e empresas tem pesado sobre a atividade, assim como a forte deterioração do mercado de trabalho. O desemprego, por exemplo, tem subido com força. Atingiu 11,8% nos três meses encerrados em outubro. Nesse cenário, a indicação de Ilan de que o ritmo de corte da Selic deverá ser intensificado a partir de 2017 não mudou a tendência de redução das projeções para o crescimento no ano que vem. Na visão de Oreng, o que o BC fez foi apontar na direção que o mercado estava esperando. "Ele mais confirmou do que gerou uma nova perspectiva [para a taxa de juros]", diz ele.
O comportamento das projeções para a Selic no Boletim Focus corrobora a avaliação de Oreng. A mediana das estimativas para o juro básico no fim de 2017 seguiu em 10,5%, mesmo nível registrado nas duas semanas anteriores. Já as previsões dos analistas com maior grau de acerto (os "top 5 de médio prazo) caíram de 10,75% para 10,38%, também pela mediana, o número que está no centro de uma distribuição de dados.
Na reunião do fim de novembro, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a Selic em 0,25
ponto percentual, para 13,75%, mesma magnitude do corte promovido no encontro anterior, apesar da fraqueza da atividade econômica. Depois do encontro, contudo, Ilan deu sinais de que a partir de janeiro os juros cairão mais rápido.
Coordenadora de macroeconomia e sócia da Tendências Consultoria, Alessandra Ribeiro avalia que os preços já refletiam "uma certa aceleração da queda dos juros". Isso ajuda a entender por que as indicações do BC sobre a Selic não surtiram grande efeito sobre as projeções do mercado. Para ela, a Selic vai terminar 2017 em 10,5%, havendo espaço para o juro cair eventualmente até 10%.
Alessandra projeta um crescimento de 0,7% no ano que vem, destacando, contudo, que será difícil atingir esse número, uma vez que ele exige uma expansão média trimestral de 0,6%, feito o ajuste sazonal. "É algo desafiador", afirma Alessandra, lembrando que a herança estatística (o "carry
over", em economês) que 2016 deixará para 2017 "será muito ruim", de 0,7%. Isso significa que, se a economia não crescer nada em relação ao nível do quarto trimestre, o PIB encolherá 0,7% em 2017.
Indicadores de outubro como a produção industrial, as vendas no varejo e o desempenho do setor de serviços apontam para nova queda do PIB nos últimos três meses deste ano. Para completar, os índices de confiança da indústria e do consumidor recuaram em dezembro, nota ela, que espera
contração de 0,2% no quarto trimestre em relação ao anterior. Na visão de Alessandra, o nível alto de endividamento de empresas e famílias e do governo é o principal fator que dificulta a retomada.
A incerteza no cenário político, com surpresas relacionadas à operação Lava Jato, também é um
risco para a atividade no ano que vem. Na semana passada, o Banco Safra reduziu a projeção para o PIB em 2017 de um crescimento de 0,5% para zero. Ao falar dos "desafios que ainda estão por
vir", o relatório da equipe do economista-chefe do banco, Carlos Kawall, ressalta que a saída da crise será lenta. "Além da necessidade de reformas estruturais e de austeridade fiscal, o setor privado (empresas e famílias) passa por um processo de desalavancagem, o que não rima com uma recuperação rápida."
O economista Rodolfo Margato, do Santander, prevê crescimento de 0,7% em 2017, acreditando que uma recuperação mais potente ficará para o segundo semestre, a ser liderada pelo investimento. Num cenário de ampla ociosidade na economia e inflação em queda, ele vê espaço para uma queda significativa da Selic, que pode terminar o ano que vem em 9,75% e 2018 em 8,5%.
Isso contribuiria para um crescimento de 3% em 2018, segundo Margato a mediana das projeções do Focus é um pouco mais baixa, de 2,3%. O economista diz que o risco para esse recuo mais expressivo dos juros está na câmbio. Uma eventual desvalorização mais forte do real poderia causar
pressões inflacionárias, levando o BC a ser um pouco menos ousado no ciclo de corte da Selic.
Fonte: Valor - Brasil, por Sergio Lamucci, 20/12/2016

