O Plano Decenal 2029 da Empresa de Pesquisas Energéticas (EPE), órgão estatal de planejamento do setor elétrico, prevê que a participação da energia solar fotovoltaica na capacidade instalada no Sistema Interligado Nacional salte de 2%, em 2019, para 11%, em 2029, com a adição de 6,9 GW ao longo da década - um incremento de 387%. Parte desse crescimento virá de projetos de geração centralizada voltados para o mercado livre de energia, pois a pandemia de covid-19 adiou leilões que seriam realizados em 2020 e há otimismo por parte dos empreendedores em relação à trajetória descendente dos custos da geração fotovoltaica, cuja queda, em dez anos, foi da ordem de 82%, segundo a Agência Internacional de Energias Renováveis (Irena).

Dados de novembro de 2020 da Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia (Abraceel) apontam que 39% da geração de energia das fontes renováveis incentivadas é voltada para atender ao mercado livre de energia, um crescimento de 14% nos últimos doze meses. A fonte solar fotovoltaica tem uma fatia de 12% dessa geração - há um ano era de 0,78%.

Embora seja difícil estimar com precisão as perspectivas de crescimento da energia fotovoltaica voltada ao mercado livre, os investidores estão com apetite pela fonte. É o caso da Electra Energy, que atua como comercializadora e também em projetos de geração de energia limpa para o mercado livre, com pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), biomassa e agora também no segmento de geração fotovoltaica. A empresa tem 300 MW previstos em dois projetos, nas regiões Nordeste e Centro Oeste, em fase final de estruturação financeira.

 

No mercado desde 2001, a Electra Energy foi uma das primeiras comercializadoras do país a investir em projetos próprios. Um dos motivos para o entusiasmo com a geração fotovoltaica é o fator de capacidade (a relação entre a média da geração verificada em determinado período e a potência instalada), que torna atrativa a taxa de retorno dos investimentos na energia fotovoltaica. A fonte eólica, por exemplo, tem um custo de produção de 1 MW da ordem de R$5 milhões, com um fator de capacidade de 45% e, no caso da solar, esse custo hoje é de R$ 3 milhões, com um fator de capacidade médio de 30%, explica Claudio Alves, diretor presidente da Electra Energy. “A solar é hoje a fonte mais competitiva do mercado livre e apresenta outras vantagens, com estruturas de fácil instalação e manutenção. O conjunto tecnológico dos sistemas fotovoltaicos evoluiu rapidamente nos últimos dois anos, com maior eficiência dos inversores e rastreadores”, diz Alves.

Outro fator que deverá influenciar o aumento da presença de energia solar no mercado livre são os fatores ESG - sigla para designar critérios ambientais, sociais e de governança aplicados aos investimentos. O segmento de energias renováveis tem sido um dos mais procurados para aportes, ao mesmo tempo que grandes companhias são pressionadas, por investidores, para reduzirem a pegada de carbono. “Nos últimos dois anos, temos visto movimento crescente de investidores para que as empresas apresentem um balanço ambiental positivo em relação a emissões de gases de efeito estufa, e essa pressão tem levado à compra de energia de fontes renováveis”, diz Maurício Salla, especialista da indústria de energia da Crowe Macro, empresa de consultoria e auditoria internacional.

Com compromisso global de utilizar 70% de energia renovável na produção de bebidas até 2030, o grupo Heineken fixou meta ainda mais ambiciosa para o Brasil: atingir 100% de consumo de energia de fontes limpas até 2023. A energia solar, adquirida no ambiente livre de contratação, é uma das estratégias para suprir a produção das fábricas de Jacareí (SP) e Ponta Grossa (PR), e, de quebra, reforçar o e marketing da marca de cerveja Sol, que pertence ao grupo. “Para 2021, a meta é atingir 48% de energia renovável elétrica e 65% de energia renovável térmica; produzir a cerveja Sol com energia solar contribui para essas metas e reforça o posicionamento global da marca”, diz Ornella Vilardo, gerente de sustentabilidade do grupo Heineken no Brasil.


Fonte: Valor Econômico - Suplementos, por Andrea Vialli - Para o Valor, de São Paulo, 18/12/2020