Avanço tecnológico das turbinas, preço competitivo, liberalização de regras com novos perfis de consumidores e demanda da agenda de sustentabilidade e mitigação climática das empresas, especialmente das eletrointensivas, são os principais gatilhos que levaram a fonte eólica a uma posição de destaque no mercado livre de energia. Em 2020, segundo dados do setor, a força dos ventos injetou adicional de 697 MW no ambiente não regulado de comercialização, com tendência de crescimento nos próximos dois anos, a contar pelos projetos em instalação.

De hoje até o fim de 2022, a projeção é somar mais 6,2 mil MW somente no mercado livre, contribuindo para que a energia eólica tenha capacidade total instalada de 25,6 mil MW no Brasil; 32% maior que a atual, de 17,4 mil MW. “Investidores e geradores se preparam para um ambiente cada vez mais competitivo e aberto às escolhas dos consumidores”, diz Élbia Gannoum, presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica.

A expectativa é de uma expansão de 3 GW por ano a partir de 2021, com investimento anual de R$ 16 bilhões durante uma década. Segundo Élbia, o atual cenário é fruto da abertura do segmento para empresas de menor porte. “O empoderamento do cliente muda produtos no mercado”, diz Hugo Nunes, diretor de negócios liberalizados da Neoenergia, que possui 27 parques em construção - a exemplo do Oitis, o maior deles, com 576 MW e previsão de alocar mais de 90% no mercado livre.

 

“O diferencial está em fornecer portfólio balanceado para entrega de energia do jeito que o cliente quer, com mitigação de riscos”, afirma o diretor de desenvolvimento de negócios da AES Brasil, Bernardo Sacic, ao lembrar a existência de uma corrida para projetos eólicos e compra de turbinas diante do fim dos subsídios na tarifa de distribuição de energia, anunciado pelo governo federal. Na regra de transição, o desconto, capaz de reduzir custos em até 35%, será mantido para novos empreendimentos que obtiverem outorga da agência reguladora até setembro de 2021, de modo que os parques comecem a funcionar nos próximos quatro anos. “Os próximos dois anos serão agitados por negociações comerciais”, diz Sacic.

A questão envolve a disputa tecnológica de turbinas. “É preciso mitigar a maior volatilidade do preço de energia no curto prazo”, observa Felipe Ferrés, diretor geral da Siemens Gamesa, fabricante que tem 1,9 mil aerogiradores em funcionamento no Brasil e, em 2021, começará a operar um novo equipamento de grande porte, com rotor de 160 metros de diâmetro e 6 MW de capacidade.

No caso da concorrente Vestas, que há 20 anos colocou em operação a primeira torre eólica brasileira, em Fernando de Noronha, a aposta está no modelo de turbina V150 com upgrade para 4,8 MW, lançada em outubro. “É adaptada ao perfil de vento brasileiro”, atesta o diretor Eric Gomes. A empresa fornecerá máquinas para a segunda fase do complexo Rio do Vento, com 534 MW de um total de 1 GW, no Rio Grande do Norte.

“Está em jogo uma boa relação preço-horário no mercado livre”, ressalta Lucas Araripe, diretor de novos negócios da Casa dos Ventos, responsável pela operação do complexo e detentora de 1,5 mil MW de eólica para contratos de longo prazo no ambiente não regulado. Segundo ele, custo e previsibilidade são essenciais. “No futuro somente residências estarão presas a distribuidoras no mercado regulado”, diz ele.


Fonte: Valor Econômico - Suplementos, por Sergio Adeodato — Para o Valor, de São Paulo, 18/12/2020