O Banco Central (BC) calculou em 3,9% o nível de ociosidade da economia brasileira. O número é elevado e um dos elementos a justificar a manutenção dos juros reais negativos ainda por um tempo. O Banco Central acredita que esse indicador, que sintetiza alguns fatores como desemprego e uso da capacidade produtiva nas fábricas, ainda vai demorar para chegar em zero.

O dado foi apresentado pela primeira vez no corpo do Relatório Trimestral de Inflação (RTI) e já mostrou melhora em relação aos dois trimestres anteriores, refletindo a retomada do crescimento do país. O ponto mais baixo foi no segundo trimestre, auge da pandemia, quando o indicador, também chamado de “hiato do produto”, ficou negativo em 4,9%. “No cenário-base, o hiato vai fechando ao longo do tempo, chegando a níveis neutros em 2022”, disse o BC.

O economista da LCA e pesquisador do Ibre/FGV, Braulio Borges, avaliou que “a boa notícia é que aparentemente vão divulgar isso regularmente, depois de um lapso de nove anos que perdurou até setembro”, no relatório anterior. “Agora, eles escolheram exatamente uma única medida, aquela apresentada no RTI anterior. Por mais que apresentem intervalos de confiança para essa estimativa de hiato (um belo avanço, ainda que a IFI já faça isso há quase três anos), o BCB poderia divulgar outras estimativas de hiato, como o BC chileno faz, por exemplo”, completou.

O relatório revisou as estimativas para o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro neste e no próximo ano. Para 2020, a queda na economia será de 4,4%, ante 5% de recuo na estimativa anterior. Para 2021, passou de 3,9% para 3,8% de crescimento. O ritmo de retomada no próximo ano é maior do que os 3,2% previstos pelo Ministério da Economia e mesmo do que o mercado financeiro, de 3,5%. Mesmo assim, a velocidade é modesta, dado o tombo verificado neste ano.

Nesse contexto, o cenário central de inflação apresentado pela autoridade monetária mostra que o IPCA vai encerrar este ano em 4,3%, um pouco acima do centro da meta. Mas já voltaria para baixo do alvo de 3,75% definido para 2021, ficando em 3,4%, mesmo índice esperado para 2022, período para o qual o BC começa gradualmente a olhar com mais intensidade.

O diretor de política econômica do Banco Central, Fabio Kanczuk, disse que a partir do segundo trimestre do ano que vem o foco da política monetária será totalmente voltada para 2022.

O presidente do BC, Roberto Campos Neto, por sua vez, disse que, à medida que o tempo passa, 2022 vai ganhando peso e que, à medida que o “forward guidance” (indicando que o juro não ia subir por um período de tempo) vai sendo retirado, volta-se ao cenário central, como definido no sistema de metas de inflação. “O foco foi ganhar transparência”, disse.

Os representantes do BC, assim como o documento divulgado ontem, enfatizaram a leitura de que a inflação mais alta nesses meses mais recentes é um fenômeno temporário. Admitiram que ela pode até aumentar no acumulado em 12 meses ao longo do próximo ano, mas vai estar comportada e encerrará 2021 na meta.

A “surpresa inflacionária” no trimestre entre setembro e novembro foi positiva em 1,44 ponto porcentual e o IPCA projetado para dezembro é de 1,09%. Para janeiro e fevereiro, porém, as taxas mensais já começam a rodar abaixo da meta, com 0,27% para o primeiro mês e 0,36% para o segundo. Entre os fatores recentes de pressão nos preços estão os itens administrados, como energia elétrica e reajustes de mensalidades escolares.

O BC enxerga risco zero de a meta não ser cumprida neste ano e probabilidade maior (19%) de o IPCA ficar abaixo do piso da meta do que de estourar seu teto - calculada em 8% -- em 2021. Para 2022, as chances também são maiores de ficar abaixo do piso do que de estourar o limite superior.

A autoridade monetária também inovou ao apresentar, com cálculos matemáticos, cenários alternativos para a inflação considerando uma situação de crise decorrente de piora na percepção fiscal, que faria o IPCA estourar o teto da meta em 2021, e de prolongamento da pandemia, que faria esse indicador encostar no piso de 2%.

Em um boxe, o BC explicitou numericamente que a deterioração na leitura de risco fiscal do mercado levaria o IPCA para 6,4% no ano que vem, acima, portanto, do limite de 5,5%. Em 2022, cairia para 4,2%, mas ainda ficaria acima do centro da meta, de 3,5%. Já no caso de um prolongamento da pandemia e do distanciamento social, a inflação ficaria em 2,4% em 2021 e 2,5% no fim do ano eleitoral, abaixo do centro, mas dentro da meta.

Campos reforçou a mensagem fiscal do relatório e dos últimos meses, defendendo a importância do teto de gastos, e disse que o instrumento precisa ser mantido e que eventuais soluções “criativas” que o driblem representariam “quebra da disciplina fiscal” no âmbito do forward guidance.

Ele reconheceu que pode haver soluções com o teto que aumentam dívida e sem o teto, que mantenham ou reduzam o indicador fiscal, mas reforçou o apoio ao teto. “Achamos que o teto de gasto deve ser mantido e soluções criativas são uma quebra da disciplina fiscal. É o que entendemos que é importante no âmbito do forward guidance”, disse.

O impacto da prescrição futura nas taxas de juros do mercado também foi calculado pelo BC. Segundo a autoridade, o forward guidance (FG) promoveu redução nas taxas de juros de mercado, em especial na de dois anos. O tema foi tratado em um capítulo à parte.

“Este boxe aponta a eficácia da adoção do FG, representado pelo comunicado da reunião do Copom de agosto de 2020, na estrutura a termo da taxa de juros. De acordo com as estimativas realizadas, o efeito do FG foi de 0,12 p.p. (taxa nominal) ou 0,11 p.p. (taxa real), sendo similar a uma surpresa negativa de 25 pb [0,25 p.p.] na taxa Selic”, informou o BC. “Essa estimativa deve ser vista com cuidado, em função da pequena quantidade de observações”, completou.

 

Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Fabio Graner, Alex Ribeiro e Estevão Taiar - De Brasília e São Paulo, 18/12/2020