Indicadores elaborados pelo Banco Central apontam, em linha com outras pesquisas, que o processo de reabertura de empresas tem continuado nos segmentos mais afetados pelo distanciamento social e que não houve, por ora, encerramento permanente de firmas de maneira disseminada pela economia, um sinal positivo para o restabelecimento da oferta no médio prazo. Pelo lado da demanda, porém, a poupança precaucional dá sinais de que ganha espaço sobre a circunstancial, sugerindo que parte da volta do consumo pode não ser imediata, mesmo com avanços no controle sanitário.
No Relatório Trimestral de Inflação (RTI) de dezembro, publicado ontem, o BC mensurou o percentual de empresas com queda mensal de faturamento superior a 50%, na comparação interanual. Para o varejo e serviços prestados às famílias, foram usadas informações de cartão de crédito e débito, enquanto a análise da indústria de transformação e dos serviços às empresas partiu de dados de pagamento de boletos entre firmas.
Os resultados sugerem, segundo o BC, que a maioria dos segmentos do varejo voltou a uma dinâmica próxima ou ligeiramente melhor do que a do período pré-pandemia. Em outubro, a participação das firmas com queda elevada de faturamento no varejo como um todo era de 17%, ante 15% em fevereiro e março. Em maio, o pior momento, chegou a 35%, a partir de quando começou a cair. No varejo de móveis e eletrodomésticos, o peso dessas firmas estava em 16% em outubro, abaixo dos 19% de fevereiro, enquanto no comércio de veículos encontrava-se no mesmo nível de fevereiro (15%).
Em linha com a recuperação mais lenta observada nas pesquisas do IBGE, o comércio de vestuário e calçados e o segmento de serviços prestados às famílias ainda apresentam massa elevada de empresas com quedas fortes no faturamento, de 27% e 32%, nesta ordem, aponta o BC. No pior momento, em maio, os pesos eram de 69% e 75%, respectivamente.
Na indústria de transformação e serviços às empresas, o indicador sugere que a maioria dos segmentos apresenta comportamento próximo ao observado no pré-pandemia. O peso das firmas com queda elevada de faturamento estava em 8% na indústria em outubro, ante 37% em abril, e em 15% nos serviços às empresas, sendo que em maio, seu pior momento, era de 26%. A exceção, nota o BC, é a produção industrial de semiduráveis (também influenciada por vestuário e calçados), cujo peso de firmas com forte queda no faturamento ainda estava em 24% em outubro, ante 11% em fevereiro, mas abaixo dos 64% de abril.
Em outro exercício, o BC decompôs a redução dos gastos das famílias (trabalhadores formais empregos na pandemia) com cartão de crédito de março a setembro entre efeito circunstancial (EC), consequência direta das restrições a atividades e das mudanças de comportamento, e efeito precaucional (EP), decorrente dos impactos sobre a atividade com implicações sobre o emprego e a renda.
Segundo o BC, os resultados sugerem “cautela com a retomada da atividade”. Houve preponderância do efeito circunstancial para explicar a dinâmica dos gastos com cartão, aponta. “Em abril, quando houve maior redução dos gastos com cartão de crédito, estima-se que o EC tenha sido três vezes maior que o EP.” Desde maio, o tamanho do EC cai, em linha com a normalização da mobilidade, fator importante para a recuperação do consumo, diz o BC. Mas a magnitude do efeito precaucional ficou relativamente constante, “sugerindo que permanece a incerteza em relação ao comportamento futuro do mercado de trabalho”.
O BC nota que o efeito circunstancial é mais forte para pessoas mais velhas. Já o efeito precaucional mostra-se mais elevado para indivíduos com até 55 anos. “Essa evidência é compatível com maiores preocupações, por parte dos indivíduos mais novos, acerca do impacto econômico da pandemia.”
Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Anaïs Fernandes - De São Paulo, 18/12/2020


