O Banco Central começará a subir os juros em algum momento do próximo ano - o fará antes, se as perspectivas fiscais mudarem claramente para pior, ou simplesmente não o fará se o freio às atividades pela pandemia se prolongar em 2021. No primeiro caso, a política monetária será inteiramente outra, porque o BC vê um salto de 3 pontos percentuais na inflação, para 6,4%, no último trimestre de 2022. Se a pandemia persistir, o IPCA cai a 2,4%.

O cenário apresentado pelo Copom em sua última ata considera que pelo Focus, a inflação ultrapassa a meta neste ano e fica abaixo dela em 2021 e 2022, porém com a ajuda de alta da taxa Selic para 3% no fim de 2021 e 4,5% em 2022. No cenário com Selic constante a 2%, que pressupõe a mesma taxa de câmbio que o Focus e projeções idênticas para o comportamento dos preços administrados, o IPCA ultrapassa a meta em 2020, fica abaixo dela em 2021 e volta a ultrapassá-la em 2022. Como a defasagem dos efeitos da política monetária varia de 12 a 18 meses, o BC poderá ter de elevar os juros a partir do segundo semestre, embora nada assegure que o fará na intensidade projetada pelos consultores e economistas no Focus.

Os cenários econômicos traçados do Relatório de Inflação de dezembro continuam a pressupor “incerteza acima do usual” para 2021, com uma inflação puxada pelos alimentos que se mostrou “mais forte, persistente e abrangente” do que previa em setembro. As perspectivas contemplam o céu e o inferno. Há uma segunda onda da covid-19 que tirará pontos de crescimento no primeiro trimestre do ano e vacinas a caminho, que podem permitir avanços consistentes a partir da segunda metade do ano. O governo pode acertar o pé nas reformas ou elas se inviabilizarem de vez.

No cenário básico, a economia cresceu mais do que o previsto em 2020, mas não andará muito rapidamente em 2021. O BC reviu sua projeção para o PIB de 3,9% para 3,8% e a taxa tem forte carregamento estatístico. Supondo que ele seja de 3,5%, as atividades avançam 0,3% na margem, o que é muito pouco. Uma das razões é a revisão para baixo do consumo das famílias, que soma dois terços do PIB (demanda). O BC piorou estimativa para 2020 em relação a seu relatório de setembro, de queda de 4,6% para outra, de 6%. Em 2021, a mudança foi ainda maior, de 5,1% para 3,2%. Há o mesmo movimento, mas moderado, no consumo do governo (20% de peso no PIB).

Para isso contribuem o aumento do desemprego, o fim do auxílio emergencial e a estimativa, em estudo especial do relatório de dezembro, de que a poupança feita nos meses críticos da pandemia não se destinará a gastos tão logo. “Parte da recuperação esperada do consumo pode não ser imediata, mesmo diante de avanços no controle do problema sanitário”, estima o BC. Por outro lado, a vacinação pode acelerar a recuperação do setor mais atingido pela covid-19 - serviços, mais de dois terços do PIB (oferta), normalizar a produção e assegurar a aceleração do crédito (15,6% em 2021).

O início da recuperação da economia trouxe aumento de preços por uma conjunção de fatores: forte desvalorização do real, desorganização de cadeias produtivas e de distribuição pela pandemia, aumento do consumo pelo auxílio emergencial, principalmente de alimentos, mas não só, valorização das commodities, saída do fundo do poço do setor de serviços etc. Com isso o BC errou o alvo em 1,44% na estimativa de inflação trimestral (até novembro). Em dezembro ela será alta e, em 12 meses, chegará a 5,7% no segundo trimestre de 2021, acima até mesmo do intervalo de tolerância da meta (1,5%).

A média dos núcleos de inflação foram a extremos em questão de meses - de 1,83% em junho, abaixo do piso da meta, para 5,14% agora. Em 2020, o IPCA fechará em 4,3%. O BC só não terá de agir se a economia for pior que o previsto, uma possibilidade. Se evoluir como o esperado, terá de subir os juros, também por outras métricas que divulgou. O hiato do produto encerra o ano em -3,9%, mas o BC estima que ele será zerado em 2022, isto é, não será mais necessária uma política monetária fortemente estimulativa como vem praticando. A taxa de juros neutra (que não acelera nem reduz as atividades) calculada pelo BC é de 3% - que pode ser para onde a Selic rumará. Resta definir o timing e a velocidade do aumento dos juros, dentro das premissas desenhadas pelo BC.

Mas há grande incerteza não só sobre a pandemia. O presidente Jair Bolsonaro inicia a segunda metade de seu mandato e as reformas mal andaram. O fantasma do fim da âncora fiscal não foi embora e isto muda tudo.


Fonte: Valor Econômico - Opinião, 18/12/2020