Em seu Relatório de Inflação, o Banco Central estimou que uma significativa deterioração da percepção do mercado sobre a situação fiscal do país elevaria a inflação em 2021 para 6,4%, três pontos percentuais acima do cenário básico da autoridade monetária, ultrapassando, assim, o limite superior do intervalo de tolerância da meta, de 5,25%. Já o prolongamento dos efeitos da pandemia de covid-19 reduziria a inflação para 2,4% no próximo ano, um ponto percentual abaixo do cenário básico do BC.

As projeções do BC constam de um box específico do relatório, que procurou analisar alguns dos riscos que são avaliados pelo Copom ao definir sua política monetária. O texto informa que o Copom tem enfatizado a importância de o Brasil perseverar no processo de reformas e ajustes necessários na economia. E adverte que “questionamentos sobre a continuidade das reformas e alterações de caráter permanente no processo de ajuste das contas públicas têm o potencial de aumentar a incerteza econômica, os prêmios de risco e a taxa estrutural da economia e depreciar a taxa de câmbio”.

Para definir sua política monetária, o Copom traça o seu cenário básico e diversos cenários alternativos, que exploram os fatores de risco em torno do cenário básico. No box, o BC apresenta dois cenários alternativos de risco como uma forma de evidenciar as incertezas envolvidas nas projeções de inflação. O primeiro cenário simula uma situação de significativa deterioração da percepção sobre a situação fiscal, enquanto o segundo incorpora um prolongamento dos efeitos da pandemia de covid-19.

Para construir o primeiro cenário, o BC utilizou como referências as variações da taxa de câmbio, da incerteza econômica (medida pelo Indicador de Incerteza da Economia Brasil – IIE-Br da Fundação Getúlio Vargas) e do prêmio de risco (medido pelo CDS Brasil de cinco anos), ocorridas no período de julho de 2014 a janeiro de 2016. A deterioração fiscal daquela época levou, mostra o BC, a uma elevação da incerteza, do câmbio e dos prêmios de risco. “A depreciação cambial, juntamente com forte realinhamento dos preços administrados, contribuiu para a elevação da inflação, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), observada no período, de 6,41% em 2014 para 10,67% em 2015”, afirma o texto.

Neste cenário alternativo, a trajetória da Selic assumida é a mesma do cenário central, que advém da pesquisa Focus realizada em 4 de dezembro de 2020. Portanto, observa o texto, “os cenários alternativos não incorporam efeitos de possível reação do Banco Central do Brasil”.

A conclusão do BC é que o efeito de uma deterioração fiscal sobre as projeções de inflação é significativo. “As projeções atingem pico de 7,2% no terceiro trimestre de 2021, terminando o ano 3,0 pontos percentuais acima do cenário-base, em 6,4%, ultrapassando o limite superior do intervalo de tolerância da meta, de 5,25%”, diz o box.

O BC explica, em seu texto, que o aumento da inflação se dá pelo repasse cambial, tanto para preços livres como administrados, pelo aumento da taxa de juros real neutra e pelos efeitos nas expectativas de inflação. Segundo a autoridade monetária, “os efeitos são mais fortes em 2021 em virtude de o choque começar já no primeiro trimestre do ano”, pois “parcela significativa da transmissão dos efeitos da depreciação cambial sobre a inflação ocorre em prazos relativamente curtos, tendo em vista a resposta de preços de combustíveis e de commodities em moeda nacional”. O texto adverte ainda que, “se for considerado um choque começando mais tarde, a tendência é de os efeitos serem mais significativos em 2022”. No sentido contrário, acrescenta, “atua o efeito negativo na atividade econômica de uma maior incerteza”.

O segundo cenário alternativo busca captar os efeitos desinflacionários de um prolongamento da pandemia. O Copom reconhece, diz o texto, que o nível de ociosidade pode produzir trajetória de inflação abaixo do esperado, notadamente quando a ociosidade está concentrada no setor de serviços. “Esse risco se intensifica caso uma reversão mais lenta dos efeitos da pandemia prolongue o ambiente de elevada incerteza e de aumento da poupança precaucional.”

Para construir o cenário, o BC fez uso “de choque direto no hiato do produto na curva IS, calibrado de forma a manter o nível do hiato estável nos dois primeiros trimestres de 2021, com valor igual ao do quarto trimestre de 2020, antes de prosseguir na trajetória de fechamento”.

Como resultado da interrupção temporária da recuperação econômica, o BC conclui que as projeções de inflação são mais baixas do que no cenário-base, em 1,0 ponto percentual e 0,9 ponto percentual para 2021 e 2022, respectivamente. “A maior redução ocorre no primeiro trimestre de 2022, em 1,2 ponto percentual”, diz o texto.

 

Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Ribamar Oliveira, Valor - Brasília, 17/12/2020