
Às margens do Rio Pinheiros, o complexo imobiliário da Usina São Paulo, concedido pelo governo paulista à iniciativa privada, terá muitos desafios pela frente. Por um lado, o empreendimento depende, em grande parte, do sucesso no programa de despoluição do rio. Por outro, o projeto é alvo de críticas de urbanistas ouvidos pelo Valor, que questionam a baixa transparência do processo e seu caráter, provavelmente, elitizado (ver Urbanistas têm muitas ressalvas ao projeto).
A concessão, que prevê espaços de lazer, escritórios e restaurantes, foi licitada em setembro, e o contrato firmado em novembro deste ano. O novo operador terá direito de explorar as áreas até 2042.
O projeto é considerado um marco do programa de despoluição do Rio Pinheiros, anunciado no início da gestão do governador João Doria (PSDB). O objetivo é resolver, até o fim de 2022, o problema do mau odor do rio, que interliga as zonas Oeste e Sul da capital paulista. É justamente em 2022 que os primeiros espaços da nova usina deverão começar a ser entregues.
Quando a ideia do novo complexo foi anunciada por Doria, recebeu a alcunha de “Puerto Madero paulistano” - em referência ao bairro turístico de alta renda desenvolvido a partir da restauração de área de cais às margens do Rio da Prata, em Buenos Aires.
Na versão brasileira do projeto, foram concedidos três terrenos para exploração comercial: duas áreas marginais (uma de cada lado do rio) e a cobertura do prédio da usina - que é usada para conter enchentes no Rio Pinheiros.
Projeto abrange edifício corporativo de padrão triple A, restaurantes internacionais, “food trucks” e cinema
A usina também foi rebatizada como “São Paulo”, mas, na capital, ainda é mais conhecida por Usina de Traição - uma referência ao córrego de Traição (que hoje é a avenida Bandeirantes). A origem do nome é alvo de diversas histórias. Uma delas diz que a região costumava ter muitos assaltos e ataques. Outra hipótese é que, no local, teria ocorrido uma emboscada ao bandeirante Borba Gato. Há ainda uma lenda: o nome “traição” viria das águas traiçoeiras do córrego, que arrastavam para o fundo aqueles que tentavam se aventurar por lá.
O vencedor da concorrência foi o Consórcio Usina São Paulo, formado pelas empresas Kallis, Nacional Shopping Planejamentos e Concessões e Participações BR. O empresário Rodrigo Bonadia, diretor-executivo da Petroplus, tem fatia de 90% do consórcio. O grupo pagou ao governo paulista outorga fixa de R$ 280 milhões.
Na disputa, houve ainda uma segunda oferta, do consórcio Mirante CJ, do grupo JHSF - a empresa desenvolveu o empreendimento Cidade Jardim e administra o shopping center de mesmo nome, nas proximidades da usina. O lance foi de R$ 272 milhões.
O novo empreendimento vai abranger um edifício corporativo de padrão triple A, restaurantes de grifes internacionais e serviços gratuitos de cinema - será o maior telão da América Latina -, academia e bicicletário. O empreendimento será entregue em três etapas - em 2022, 2023 e 2024. Segundo Bonadia, além de restaurantes, há previsão de “food trucks”, e produtos vendidos no cinema terão preços populares.
Pelo projeto vencedor da concorrência, a previsão é que, além de novas alças viárias, para aceleração e desaceleração dos carros, haverá uma passarela para conexão com a estação Vila Olímpia, da CPTM, e outra com ligação até uma praça de onde é possível caminhar até a estação de metrô Brooklin. O empreendimento prevê também um acesso para a ciclovia da marginal.
A Usina São Paulo não é o único projeto criado a partir do programa de despoluição do rio. Também está prestes a ser anunciada a construção de um parque linear na região da Berrini, indo da João Dias até o Jaguaré, afirmou o secretário de Infraestrutura e Meio Ambiente, Marcos Penido, ainda sem dar detalhes.
O principal desafio, porém, deverá ser a própria despoluição. Apesar do ceticismo entre urbanistas e no mercado - já que se trata de uma promessa não cumprida pelos últimos governadores -, o secretário reitera que o projeto está encaminhado.
A Sabesp já licitou os 16 lotes de obras no rio. As intervenções incluem a limpeza de córregos e instalação de unidades de tratamento em zonas de ocupação irregular. Os investimentos devem somar R$ 1,7 bilhão. A empresa adotou o modelo de contratos de performance, em que a construtora só recebe de acordo com os resultados - um incentivo à entrega rápida e eficaz do serviço.
Além disso, o governo tem firmado contratos para desassoreamento e coleta de resíduos do rio, serviços que deverão ser constantes - com custo de aproximadamente R$ 85 milhões por ano. “É cedo para vermos os resultados, mas as obras estão em execução. Na limpeza do rio, já retiramos 6 mil toneladas de lixo”, diz Penido.
Em operação desde 1940, a Usina São Paulo foi construída para aumentar a capacidade de geração do complexo hidrelétrico Henry Borden, em Cubatão (SP), mas hoje é usada para regular o nível do rio Pinheiros em épocas de cheia. É acionada em torno de 40 a 50 dias por ano.
A Emae continuará fazendo a operação e manutenção da usina, num espaço separado de onde circulará o público, segundo Fernando Moliterno, assessor especial para captação de negócios da presidência da empresa.
Acompanhando a revitalização da fachada e entorno, a usina também passará por uma modernização de equipamentos. Por estar enquadrado no regime de cotas da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o empreendimento recebe, desde 2018, verbas para melhorias. Para 2021, estão previstos R$ 22,8 milhões.
A Emae também irá realocar sua subestação de energia próxima à usina, liberando espaço para um dos módulos do complexo. Duas outras subestações, da ISA Cteep, seguirão no local. Questionada se tem planos de fazer o mesmo, a Cteep diz que “estuda o potencial construtivo de alguns de seus terrenos no Estado”.
Fonte: Valor Econômico - Empresas, por Taís Hirata, Chiara Quintão e Letícia Fucuchima — De São Paulo, 15/12/2020

