Muitos analistas econômicos estão chamando a atenção para a alta da inflação acumulada em 12 meses acima de 6% a partir de maio do ano que vem como um dos principais riscos que o Banco Central terá que enfrentar para manter os índices de preços dentro das metas de 2021, de 3,75%.

No entanto, um exame mais detalhado da inflação esperada mês a mês pelo próprio mercado financeiro revela que, nesse período, os índices mensais de preços vão andar predominantemente abaixo do caminho compatível com o cumprimento da meta.

Os riscos de uma inflação acima de 6%, na verdade, devem-se ao surto inflacionário que ocorreu no fim desse ano e também a um efeito descarte dos índices mais baixos registrados no começo deste ano, quando a primeira onda da pandemia provocou um tombo na inflação.

A combinação desses dois fatores fará com que, no período entre abril e setembro de 2021, a inflação acumulada em 12 meses estoure o teto do intervalo de tolerância da meta, de 5,25%. O índice oscilará, nesse período, no intervalo entre 5,48% e 6,24%, segundo as projeções do boletim Focus do BC.

Mas, se tudo correr como o mercado espera, os índices divulgados a cada mês serão baixos. A pedido do Valor, o ASA Investments calculou os índices de inflação, mês a mês, que são sazonalmente compatíveis com o cumprimento da meta. Em seguida, comparou com as suas próprias projeções de inflação para cada mês de 2021.

A conclusão é que, entre abril e setembro, a inflação ficará abaixo do centro da meta em quatro meses, e em apenas dois ficaria acima. A inflação acumulada no período seria quase meio ponto percentual abaixo do centro da meta. Se o mesmo exercício for feito comparando a faixa sazonal da inflação com as projeções Focus, qualitativamente as conclusões serão parecidas. A inflação ficará abaixo do centro da meta em cinco dos seis meses, e no total ficaria menor do que o objetivo em 0,22 ponto.

Um dado importante na análise da trajetória da inflação no começo do ano que vem é a possibilidade de a bandeira vermelha para a tarifa de energia elétrica passar para amarelo em janeiro. Isso significaria uma queda de preços e uma inflação menor logo no primeiro mês do ano. Mas não mudaria o quadro de 2021, já que ao longo do ano a bandeira seria revertida.

“Adotamos a hipótese da bandeira amarela para janeiro”, explica o diretor do ASA Investments, Carlos Kawall. Isso faz com que a inflação projetada para janeiro fique em 0,01%. Outras casas também estão adotando a mesma hipótese, com índices próximos de zero, contanto também com notícias positivas nos preços de carnes. O consenso do mercado no Boletim Focus ainda é uma inflação de 0,39% para o mês e, se caminhar para baixo, poderá fazer a diferença para a inflação não chegar a 6% em alguns meses do ano que vem.

Os economistas, de forma geral, concordam que o fato de a inflação acumulada em 12 meses superar o teto da meta representa um risco para o cumprimento das metas. Índices muito altos podem aumentar a inércia inflacionária e contaminar negativamente as expectativas de inflação. Mas muitos dizem que, sem desconsiderar os riscos, o mais importante é acompanhar a tendência futura da inflação.

Em comunicado divulgado na semana passada, o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC renovou o seu diagnóstico de que a pressão inflacionária é passageira. Mas, ainda assim, disse que “segue monitorando sua evolução com atenção, em particular as medidas de inflação subjacente” — ou seja, os núcleos.

Apesar de toda a preocupação com a aceleração da inflação, a média dos núcleos ficou em 2,6% nos 12 meses até novembro, permanecendo mais próxima do piso da meta de 2020 (2,5%) do que do centro (4%). Pelas previsões do ASA Investments, os núcleos de inflação terão uma trajetória acumulada em 12 meses também abaixo da meta de 2021, de 3,75%. O seu percentual mais alto será alcançado em agosto, quando chegará a um pico de 3,46%. Nos meses seguintes, passa a recuar, até fechar o ano em 2,6%.


Fonte: Valor Econômico - Mundo, por Alex Ribeiro, Valor — São Paulo, 13/12/2020