A indústria de materiais de construção vai chegando ao fim de 2019 com a certeza de que este foi o ano de continuidade da recuperação do setor iniciada em 2018, segundo o presidente da Associação Brasileira da Indústria da Construção (Abramat), Rodrigo Navarro. A projeção oficial da entidade para o ano é de aumento real de 1,5% em relação ao faturamento de R$ 184,06 bilhões do ano passado, mas Navarro adiantou ao Valor que a expansão pode chegar a 2% ou até mesmo ultrapassar esse patamar. Para 2020, a expectativa inicial é de alta de 2,5% do faturamento do setor.
“Em função do crescimento das vendas até novembro, acho que a expansão acumulada de 2019 pode superar 2%”, afirma o presidente da Abramat. Reformas continuam a puxar a demanda por materiais de construção. Varejistas e atacadistas respondem por 50,3% do total comercializado pelos fabricantes de materiais, enquanto vendas diretas a construtoras ficam com a fatia de 11,6%. As exportações correspondem a 9,4%, e vendas para a própria indústria, aos demais 28,8%.
Os lançamentos imobiliários residenciais, muito aquecidos nos últimos 12 meses, na cidade de São Paulo - maior mercado imobiliário do país -, ainda tiveram reflexo pequeno nas encomendas dos produtos, devido à defasagem entre a apresentação dos projetos ao mercado e o início das obras. A partir de 2020, esse impacto tende a ser mais relevante, principalmente para a comercialização de materiais de base, mas o efeito, de fato, no crescimento das vendas da indústria é esperado para 2021.
Segundo Navarro, a queda dos juros, a maior oferta de financiamento bancário, o anúncio do programa habitacional que substituirá o Minha Casa, Minha Vida e a retomada de projetos de infraestrutura e de obras paradas tendem a contribuir para as vendas de materiais em 2020. “A construção é um dos principais vetores para a geração de empregos e para a retomada do crescimento do país”, acrescenta o presidente da Abramat. Ele diz ser, no momento, um “otimista moderado”, pois ainda há questões relevantes do país a serem tratadas, como a reforma tributária.
Levantamento realizado pela Abramat e pela Fundação Getulio Vargas (FGV) aponta alta real de 2,1% no faturamento das indústrias de materiais de construção, de janeiro a novembro, na comparação anual. As vendas de itens de base aumentaram 3,4%, e as de acabamento, 0,4%. Em novembro, as vendas de materiais aumentaram 4%, ante o mesmo mês de 2018, e cresceram 1,3% em relação a outubro. “O fim de ano está mais acelerado”, afirma o representante setorial, citando as “pequenas reformas” resultantes do décimo-terceiro salário e da liberação de recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).
A primeira projeção para 2019 era de expansão de 2%, mas a estimativa foi reduzida para 1,5% devido às incertezas decorrentes do que Navarro chama de “externalidades”, como o primeiro ano de governo, a variação cambial e mudanças macroeconômicas.
No ano passado, o faturamento deflacionado do setor aumentou 1%, depois de três quedas consecutivas. “Embora o crescimento tenha sido pequeno, foi motivo de celebração”, diz o presidente da Abramat. Em 2015, o setor tinha registrado queda real de 7,2%. Em 2016, houve redução de 13,5% e, em 2017, retração de 3,1%.
De acordo com Navarro, será possível abastecer o mercado, em 2020, mesmo se as vendas crescerem. “A pretensão de investimentos das indústrias de materiais, nos próximos 12 meses, tem se mantido acima de 70%. O setor ainda tem capacidade ociosa de 30%, cuja ocupação será gradual”, diz o presidente da Abramat.
Há pouco mais de um mês, o presidente da Saint-Gobain para Brasil, Argentina e Chile, Thierry Fournier, informou ao Valor que, em linhas gerais, o grupo tem capacidade ociosa que permite o aumento de produção necessário para o crescimento previsto de quase 10% no faturamento das operações do grupo no Brasil no próximo ano. O grupo tem aportes previstos para elevar a capacidade de fabricação de alguns produtos, mas a retomada de investimentos expressivos - interrompidos há cinco anos - ainda depende do crescimento da economia.
Em relação a 2019, a expectativa da Saint-Gobain é elevar o faturamento em 7%, abaixo do patamar de 8% a 9% inicialmente esperado. O desempenho um pouco inferior ao previsto resultou da expansão das vendas de vidros planos para a indústria automotiva e para a construção em patamar aquém do projetado. Do total vendido no país, 70% se destina à construção, 20% à indústria e 10% a outros segmentos, incluindo infraestrutura.
Já a Duratex informou, há um mês e meio, que tinha expectativas “levemente positivas” para este trimestre. Na ocasião, o gerente de relações com investidores, Guilherme Setubal, disse que a tendência era a companhia ter um quarto trimestre “sazonalmente bom em volumes, com crescimento de margens e dos resultados de forma moderada”.
Fonte: Valor-Empresas, por Chiara Quintão - São Paulo, 13/12/2019

