água tornou-se um produto financeiro na Califórnia, a partir desta semana, se juntando a ouro, petróleo e outras commodities negociadas na bolsa, provocando reação de um relator especial das Nações Unidas sobre especulação com o produto considerado um direito humano.

No dia 7 deste mês, a Bolsa de Chicago e o Nasdaq lançaram os primeiros contratos futuros de água da Califórnia. O objetivo é de fornecer aos produtores agrícolas, comerciantes e municípios a possibilidade de fazer hedge sobre a disponibilidade futura de água nesse que é o maior mercado agrícola dos EUA.

Ou seja, os contratos futuros ajudariam usuários de água a gerenciar os riscos e melhor equilibrar as demandas concorrentes de abastecimento e demanda em meio à incerteza que secas severas e inundações trazem para a disponibilidade do produto.

O novo contrato futuro de água permite que compradores e vendedores negociem um preço fixo pela entrega de uma quantidade fixa de água em uma data futura.

A criação dos contratos de água foi anunciada em setembro, em meio dos enormes incêndios na costa oeste dos EUA e com a Califórnia sofrendo seca pelo oitavo ano.

No entanto, um especialista da ONU em água e direitos humanos, Pedro Arrojo-Agudo, divulgou nesta sexta-feira um comunicado distribuído pelo Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU, manifestando preocupação de que isso poderá atrair a especulação de financistas que passariam a negociar água como outras commodities.

‘’Não dá para valorizar a água como se faz com outras commodities comercializadas”, disse Pedro Arrojo-Agudo. “A água pertence a todos e é um bem público. Está intimamente ligada a todas as nossas vidas e meios de subsistência, e é um componente essencial para a saúde pública”, disse ele.

Para o especialista, a situação é ainda mais inquietante porque a água já está sob extrema ameaça num cenário de aumento da população, demandas crescentes e grave poluição causada por agricultura e indústria de mineração, além do agravamento do impacto das mudanças climáticas.

Para o relator especial, assim como fazendeiros, fábricas e empresas de serviços públicos em busca de preços fixos, esse mercado de futuros também poderia atrair especuladores como fundos de hedge e bancos a apostar nos preços, repetindo a bolha especulativa do mercado de alimentos em 2008.

“Neste contexto, o risco é que os grandes players agrícolas e industriais e as grandes concessionárias sejam os que podem comprar, marginalizar e impactar o setor vulnerável da economia como os pequenos agricultores”, disse Arrojo-Agudo.

Para ele, a notícia de que a água será negociada no mercado de futuros de Wall Street mostra que seu valor, como direito humano básico, “está agora sob ameaça.”

O direito humano à água potável foi reconhecido pela primeira vez pela Assembleia Geral da ONU e pelo Conselho de Direitos Humanos em 2010.

Ao mesmo tempo, o banco suíço UBS sugere investimentos de longo prazo em água, que se torna cada vez mais escassa em diferentes partes do mundo. Constata que muitos países enfrentam crescentes desafios de escassez, enquanto outros tem abundância de água.

UBS menciona projeção de que 1,9 bilhão de pessoas globalmente em 2010 já viviam sob ameaça de falta de água, e o número deve aumentar para algo entre 2,7 bilhões e 3,2 bilhões até 2050.

Para o banco suíço, a necessidade urgente de otimizar a oferta de água representa ‘um caso promissor de investimento’ na cadeia inteira de valor envolvendo o produto.

Países como China e Índia enfrentam enormes problemas de água em algumas regiões. A África do Sul enfrentou uma escassez em 2017-18 que levou o governo a pedir à população para limitar o uso diário de água a 50 litros.

A agricultura representa 69% da demanda global de água fresca. Cientistas suíços compararam dietas vegetarianas com dietas que incluem consumo de carne. Calcularam que são necessários 15 mil litros de água para produção de um quilo de carne. Ou seja, a ‘’fatura pessoal de água’’ passa por uma dieta diferente no futuro.

UBS calcula que o mercado de água globalmente alcança US$ 655 bilhões, incluindo equipamentos para exploração, distribuição e tratamento.


Fonte: Valor Econômico - Mundo, por Assis Moreira - de Genebra, 11/12/2020