O Comitê de Política Monetária (Copom) manteve ontem a taxa básica de juros em 2% ao ano pela terceira reunião seguida. O colegiado do Banco Central (BC) afirmou, no entanto, que o cenário de inflação “sugere que em breve as condições para a manutenção do forward guidance podem não mais ser satisfeitas”. O “forward guidance” é a intenção já declarada pela autoridade monetária de não elevar a Selic no curto prazo.

Mesmo assim, o Copom disse que, caso abandone o instrumento, isso não significará uma alta dos juros “mecanicamente”. O comitê ainda retirou parágrafo presente em comunicados anteriores em que dizia que o espaço para novos cortes na taxa básica, se houvesse, deveria ser pequeno.

“O Comitê considera adequado o atual nível extraordinariamente elevado de estímulo monetário que vem sendo produzido pela manutenção da taxa básica de juros em 2% ao ano e pelo forward guidance”, disse o Copom em comunicado divulgado após a decisão, tomada de maneira unânime.

Para o colegiado, as três condições para a manutenção do forward guidance continuam sendo cumpridas. No caso da primeira delas, as expectativas de inflação do mercado e as projeções do próprio BC em seu cenário básico “permanecem abaixo da meta de inflação” no horizonte relevante, mesmo com a “elevação desde a última reunião, em particular para o ano de 2021”. Além disso, “o regime fiscal não foi alterado” e as expectativas de longo prazo “permanecem ancoradas”.

Entretanto, desde a adoção do forward guidance houve “uma reversão da tendência de queda das expectativas de inflação em relação às metas para o horizonte relevante”, que inclui os anos de 2021 e 2022. Outro ponto de destaque é que nos próximos meses o ano de 2021 “perderá relevância em detrimento ao de 2022” que, por sua vez, está com as projeções e expectativas em torno da meta.

“A manutenção desse cenário de convergência da inflação sugere que, em breve, as condições para a manutenção do forward guidance podem não mais ser satisfeitas, o que não implica mecanicamente uma elevação da taxa de juros pois a conjuntura econômica continua a prescrever estímulo extraordinariamente elevado frente às incertezas quanto à evolução da atividade”, disse. Nesse caso, o Copom reforçou que a condução da Selic seguirá o “receituário” do regime de metas, com base na inflação prospectiva e no balanço de riscos.

A respeito dos choques de preços recentes, o Copom reiterou a sua avaliação de que eles são temporários, embora reconheça que as últimas leituras tenham vindo “acima do esperado” e que em dezembro a inflação “ainda deve se mostrar elevada”.

“Apesar da pressão inflacionária mais forte no curto prazo, o Comitê mantém o diagnóstico de que os choques atuais são temporários, mas segue monitorando sua evolução com atenção, em particular as medidas de inflação subjacentes”, disse.

Já as diversas medidas de inflação subjacentes, mais sensíveis à atividade e à política monetária, “apresentam-se em níveis compatíveis com o cumprimento da meta” no horizonte relevante.

O BC ainda apresentou dois cenários para a inflação. No básico, ela fica em 3,4% tanto em 2021 quanto em 2022 - abaixo das metas de 3,75% e 3,5%, respectivamente. Esse cenário pressupõe taxa de juros extraída da pesquisa Focus, terminando 2021 em 3% ao ano e 2022 em 4,5%. No cenário com a Selic constante em 2%, a projeção fica abaixo da meta no ano que vem (3,5%), mas acima da meta em 2022 (4%). Em ambos os casos, é levada em conta uma taxa de câmbio que começa em R$ 5,25, a média da semana anterior à reunião do colegiado, e que evolui com a paridade do poder de compra.

Também nos dois cenários, as projeções apresentaram alta em relação à reunião anterior, quando as estimativas estavam mais baixas (3,1% e 3,3% no cenário básico, e 3,2% e 3,8% no cenário com Selic constante) mesmo com o câmbio (R$ 5,60) menos favorável. Além disso, o cenário básico mostrava uma Selic mais estimulativa em 2021, terminando o ano em 2,75%.

Já o cenário externo, antes descrito como “relativamente favorável”, passou a ser favorável.

“Os resultados promissores nos testes das vacinas contra a covid-19 tendem a trazer melhora da confiança e normalização da atividade no médio prazo”, disse. Por sua vez, a ociosidade da economia e a comunicação dos principais bancos centrais sugerem “que os estímulos monetários terão longa duração, permitindo um ambiente favorável para economias emergentes”.


Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Estevão Taiar e Alex Ribeiro - São Paulo, 10/12/2020