O “forward guidance”, que é a indicação de não subir os juros tão cedo, poderá cair já na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, de janeiro. Já uma efetiva alta de juros é mais incerta. Vista com as informações hoje disponíveis, não deveria ocorrer antes de agosto - mas pode ser que leve mais tempo, ou seja feita antes. A comunicação do BC é aberta o suficiente para se adaptar a mudanças no cenário inflacionário.

O que leva a crer numa queda do “forward guidance” em janeiro é a avaliação do Copom de que, “em breve”, as condições para a sua manutenção podem não ser mais satisfeitas. Deve-se entender o “em breve” como uma indicação para a próxima reunião.

As condições devem ser satisfeitas em breve por dois motivos. Primeiro, porque as projeções de inflação do Banco Central no cenário básico e as expectativas de inflação subiram. Segundo, porque o horizonte relevante para as decisões de política monetária se deslocou mais em direção a 2022.

Na reunião de janeiro, o horizonte do Copom terá foco predominantemente no ano de 2022. Isso significa, em termos práticos, que vai mirar a inflação no período de 12 meses que termina em setembro de 2022, que inclui o último trimestre de 2021 e os três primeiros trimestres do ano seguinte.

O Copom vai mirar, em janeiro, uma meta de 3,56%, que é uma ponderação entre as metas de 2021 (3,75%) e de 2022 (3,5%), com um peso maior para esse último ano. O BC projeta no seu cenário básico uma inflação de 3,4% para 2021 e para 2022. Ou seja, muito próxima da meta. A ponderação das expectativas de inflação do mercado dá 3,45%.

Além dos números, é importante observar a linguagem do comunicado do Copom, que esvazia o seu cenário anterior de queda das projeções e expectativas. Membros do colegiado haviam expressado nos últimos meses a avaliação de que a projeção de inflação de 2022 poderia cair no ano que vem, quando os estímulos fiscais saírem de cena e o peso do alto grau de ociosidade da economia se impuser no cenário inflacionário. “Desde a adoção do ‘forward guidance’, observou-se uma reversão da tendência de queda das expectativas de inflação em relação às metas para o horizonte relevante.”

E, uma vez retirado o “forward guidance”, quando os juros poderão subir? O BC deixa claro que, a partir de então, volta a valer a cartilha do regime de metas de inflação, guiando suas decisões em particular pelas projeções de inflação e pelo balanço de riscos. As projeções de inflação do Banco Central, vistas de forma isolada do balanço de riscos, dizem que é preciso um aumento dos juros no ano que vem. Se os juros fossem mantidos em 2% ao ano, o ano de 2022 terminaria com uma inflação de 4%, acima da meta.

Já a projeção no cenário Focus mostra que uma alta de juros a partir de agosto, conforme consenso dos analistas econômicos, seria adequada. Esse movimento levaria a taxa de juros para 3% ao final do ano que vem e a inflação ficaria em 3,4% em 2022.

Mas as projeções de inflação seriam suficientes para determinar o timing e o grau de aperto monetário? Provavelmente, não. O Copom, na sua formação atual, tem pesado muito o balanço de riscos nas suas decisões. E o comunicado do Copom destaca um item do balanço de riscos para indicar a adequação da manutenção de juros por um período não especificado.

“A conjuntura econômica continua a prescrever estímulo extraordinariamente elevado frente às incertezas quanto à evolução da atividade”, diz o documento. Note que o Copom não faz nenhuma menção do tempo de validade dessa avaliação. Em tese, duraria o tempo necessário para avaliar a evolução da atividade - e um dos componentes mais importantes é se a economia anda com as suas próprias pernas quando os estímulos fiscais saírem de cena.

Mas é bom notar que, a partir da saída do “forward guidance”, a política monetária volta a ser feita de forma convencional. Isso significa que notícias ruins que aumentem as projeções de inflação ou inclinem o balanço de riscos para o lado desfavorável podem levar a um aperto mais cedo das condições monetárias. Notícias boas, levariam a um adiamento.


Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Alex Ribeiro - São Paulo, 10/12/2020