Após um ano que começou difícil e que depois se agravou com a covid-19 nos meses de abril e maio, a indústria cimenteira tem muito o que comemorar neste 2020. Vai encerrar com forte crescimento nas vendas, mas as perspectivas para o próximo ano não se mostram muito promissoras, ao menos ao olhar deste momento - o setor já admite que terá um desempenho mais modesto. A direção do Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (SNIC), que reúne as fabricantes no país, está bastante cautelosa e evita a fazer projeções, diante de um cenário de incertezas em relação à economia do país e também ao mercado da construção civil.

“Se, em 2021, mantivermos as 60 milhões de toneladas que devemos alcançar neste ano, ou tivermos algum avanço além desse volume, será, absolutamente, satisfatório com um número grande de incertezas à frente”, disse ao Valor o presidente do SNIC, Paulo Camillo Penna. O dirigente se diz “modestamente otimista” em relação ao próximo ano.

As vendas de cimento devem terminar 2020 com incremento de 9,5% a 10% em relação ao ano passado. Se houver repetição das 4 milhões de toneladas de cimento comercializadas em dezembro de 2019, o acumulado deste ano será de 60 milhões de toneladas. O presidente do SNIC avalia que as vendas totais poderão alcançar 60,3 milhões de toneladas.

Caso isso se confirme, o país voltará ao patamar de comercialização registrado nos 12 meses encerrados em setembro de 2015. “Teremos recuperação de 50% das perdas acumuladas entre 2015 e 2018”, conta Penna. No ano passado, houve crescimento de 3,5% nas vendas do insumo.

A autoconstrução foi a salvação da “lavoura” em 2020, em meio ao cenário de estaganação que se viu em abril. A partir de junho, puxou fortemente a demanda de cimento para obras de reformas e novas construções. O executivo aponta o auxílio-emergencial do governo a uma parcela da população como um dos fatores, principalmente no Nordeste. Com a redução do benefício à metade, para R$ 300, e o fim da concessão a partir de janeiro, o consumo de cimento pelas famílias tende a arrefecer. Parte das obras de autoconstrução estão já na fase de acabamento, o que significa mais procura por argamassa e tintas do que por cimento.

A autoconstrução e os lançamentos imobiliários de média e alta renda garantiram 80% das vendas de cimento no período. Obras de infraestrutura continuam estagnadas em 8%.

Entre as incertezas com potencial para afetar o consumo de cimento citadas por Penna, está também o desempenho de lançamentos imobiliários, no terceiro trimestre, abaixo da expectativa. O fim do auxílio-emergencial é outra preocupação que entra na conta, alem do aumento do desemprego e redução da confiança do consumidor e empresários.

Penna defende a aprovação das reformas tributária e administrativa, além da retomada dos investimentos em infraestrutura. Ontem, a Medida Provisória (MP) que criou o programa habitacional Casa Verde e Amarela, em substituição ao Minha Casa, Minha Vida, foi aprovada no Senado. A MP do programa irá para sanção presidencial.

De janeiro a novembro, a comercialização de cimento acumulou alta de 10,4%, para 56,1 milhões de toneladas. Nos 12 meses terminados em novembro, as vendas chegaram a 59,85 milhões de toneladas. Isoladamente, no mês de novembro, houve expansão de 11,7%, na comparação anual, para 5,3 milhões de toneladas. Por dia útil, as vendas caíram 5,2%, ante outubro, para 240,2 mil toneladas.

Antes da pandemia, o SNIC projetava alta de 3% para 2020. Em abril, com a queda acentuada da demanda, a entidade chegou a esperar uma retração entre 7% e 9% no ano. De junho a outubro, o setor registrou forte recuperação.

Mas isso ainda não foi suficiente para retomada de fábricas que estavam fechadas - apenas uma moagem foi reativada. O que as empresas fizeram foi religar inúmeros fornos paralisados há vários anos devido à crise 2015-2018.


Fonte: Valor Econômico - Empresas, por Chiara Quintão e Ivo Ribeiro — De São Paulo, 09/12/2020