Festejada, a recuperação do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre ajudou a reduzir as previsões de tombo no ano. Mas pouco aliviou a situação da população quando se fala em PIB per capita. A perspectiva é que esse indicador, calculado pela divisão do PIB pelo número de habitantes, vai fechar o ano no menor patamar desde 2009.
Antes da pandemia do novo coronavírus, esperava-se que o PIB per capita se consolidasse neste ano ao redor de R$ 35 mil, o que seria o melhor resultado desde 2015, segundo projeção do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Naquele ano, o país passava por uma recessão, iniciada no fim de 2014 e que se estendeu até 2016, período em que a queda acumulada do PIB per capita ficou perto de 9%. Nos três anos seguintes, o fraco crescimento do PIB praticamente empatou com a expansão da população.
Com a retração econômica causada pela pandemia, no entanto, as previsões mais otimistas jogaram o PIB per capita para pouco acima de R$ 33 mil no fim deste ano, segundo o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV) - ou seja, de volta ao patamar do fim da primeira década do século.
Se esta estimativa se confirmar, a queda do PIB per capita será de 5,4% neste ano, mais acentuada do que a do próprio PIB, calculada em cerca de 4,5%. Pesquisa Focus divulgada ontem apontava encolhimento de 4,4% da economia. Será também o maior recuo de todos os tempos do PIB per capita, depois dos 6,3% registrados em 1980.
Da mesma forma, a recuperação do PIB per capita deve ser mais lenta do que a da economia. Enquanto se espera que o crescimento do PIB fique ao redor de 3,5% no próximo ano, a perspectiva é de que o PIB per capita aumente pouco mais de 2,5% e volte ao patamar de 2019 apenas em 2022 ou 2023.
Pior do que isso é a previsão de que vai levar ainda uma década para se voltar ao melhor patamar de todos os tempos. Ou seja, somente em 2030, o PIB per capita vai se igualar ao que foi registrado em 2013, quanto estava ao redor de R$ 37,5 mil a preços constantes de 2019, calculados pelo Ipea.
Todas essas previsões, porém, levam em conta que os ventos favoráveis ajudem a economia e tudo saia certo, o que é altamente improvável. A começar já por este último trimestre do ano, que deve apresentar crescimento bem menor do que no terceiro, e pelas incertezas esperadas para 2021.
Uma das principais ameaças é a provável segunda onda da covid-19, que já afeta países europeus e os Estados Unidos, que estão bem mais perto do que nós da vacinação. O plano brasileiro de imunização é outra incerteza importante uma vez que não está claro quando vai começar nem qual será sua abrangência. O governo federal parece patinar nesse campo.
Além das questões sanitárias, há muitas incertezas na economia. O término a partir deste mês do auxílio emergencial deverá ter impacto importante. Depois de ter beneficiado cerca de 65 milhões de brasileiros, socorrendo principalmente trabalhadores informais e ajudando a sustentar o PIB, o auxílio emergencial foi reduzido de R$ 600 para R$ 300 em setembro, e deve terminar neste ano. O simples corte do auxílio emergencial e a perspectiva de seu término já aumentou em cerca de 1 milhão o número dos que pleiteiam entrar para o Bolsa Família, composta por 14,28 milhões de famílias (Valor, 4/12). Acredita-se que a fila vai aumentar ainda mais.
O governo já levantou a possibilidade de ampliar o Bolsa Família ou criar um novo programa social, de olho inclusive nos dividendos políticos da medida. Mas não consegue articular uma fonte de financiamento. De modo que a proposta não vai em frente. Enquanto isso, o desemprego supera os 14% segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e tende a crescer mais com o fim do auxílio emergencial.
Não parece também claro que o governo vai conseguir aprovar a agenda de reformas, como a tributária, a administrativa, consideradas importantes para alavancar a economia, melhorando a competitividade das empresas. Há, ainda, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) Emergencial, que regulamentará os gatilhos em caso de descumprimento do teto de gastos; a dos Fundos Públicos, do Pacto Federativo e, mesmo, o Orçamento da União para 2021.
Fonte: Valor Econômico - Opinião, 09/12/2020

