stas de Emenda Constitucional (PECs) do ajuste fiscal sinaliza um novo marco de regras para o país, a se somarem ao teto de gastos e à Lei de Responsabilidade Fiscal. Documento enviado pela equipe do senador Marcio Bittar (MDB-AC) para lideranças do Senado com o parecer preliminar previa que as medidas de controle de gastos seriam acionados se as despesas federais obrigatórias ficassem acima de 95% da despesa total.

Por essa versão do texto, no caso de Estados e municípios, as travas entrariam em cena quando a relação entre despesa e receita corrente superar 95%. Há uma permissão de acionamento do gatilho de forma emergencial para esses entes quando a relação ficar em 85%, desde que o Legislativo aprove.

Ontem, parlamentares, assessores e analistas passaram o dia tentando entender o relatório que sintetiza as PECs do Pacto Federativo, Emergencial e dos Fundos. Como o texto ainda poderia sofrer alterações até ser formalizado no Senado, o que não havia ocorrido até a conclusão desta edição, a leitura ficou prejudicada.

Entre as medidas definidas para o ajuste fiscal previstas no relatório preliminar, estava a proibição de reajustes, aumentos ou readequação de qualquer natureza para servidores civis e militares. Também, se o texto for adiante, não podem ser criados cargos, empregos ou funções que impliquem aumento de despesa. Tampouco haver reestruturação de carreiras quando isso implicar aumento de despesa e será vedada realização de concursos públicos, exceto para reposição de vagas, entre outras.

Ações mais fortes de corte de gastos que estavam originalmente previstas, como a redução em 25% dos salários e da jornada de servidores, que geravam uma economia superior a R$ 25 bilhões em dois anos, ficaram de fora do texto, conforme antecipou o Valor.

Na versão que tem circulado, também se busca facilitar o cumprimento da “regra de ouro” das contas públicas - mecanismo constitucional que em tese veda o endividamento para cobertura de gastos correntes. Pelo projeto, bastará a aprovação do Orçamento autorizando a cobertura de eventual insuficiência para que o dispositivo seja cumprido.

Hoje, o governo precisa deixar parte das suas despesas excepcionalizadas na proposta de Orçamento e só pode realizá-las se posteriormente o Congresso aprovar um crédito suplementar para financiá-las. Isso tem ocorrido há três anos. Com o texto, corta-se uma etapa de negociação.

Nessa versão também há mais clareza na redação que prevê a possibilidade de lei complementar para definir regras e metas de sustentabilidade da dívida pública. O comando constitucional, nesse caso, prevê que a futura lei poderá acionar as medidas de ajuste fiscal definidas nessa PEC, em caso de descumprimento de regras para a dívida pública.

Apesar de ainda preliminar, a versão que circulou ontem já estava ensejando apresentação de emendas. O texto trazia a previsão de que, em caso de calamidade, parte das regras fiscais não seria aplicada. Uma das exceções para a criação ou majoração de auxílios, vantagens, bônus e outros nesse tipo de situação era para profissionais de saúde e assistencia social. O líder do PSL, senador Major Olímpio (SP), quer incluir servidores da segurança pública.

A versão preliminar que tem circulado no Congresso também traz a previsão da extinção de fundos públicos, prevendo um período de dois anos para que os Poderes Legislativos federal, estaduais e municipais avaliem os mesmos. Após o período citado, o fundo só será mantido se for ratificado pelos parlamentares.

Seis fundos ficariam de fora do pente-fino e seriam preservados: entre eles, o Fundo Nacional de Segurança Pública (FNSP); o Fundo Penitenciário Nacional (Funpen) e Fundo Nacional da Cultura (FNC).

As receitas públicas desvinculadas em decorrência do dispositivo terão outras vinculações, como para projetos e programas voltados à erradicação da pobreza; investimentos em infraestrutura em rodovias e ferrovias; projetos e programas voltados à segurança de regiões de fronteira; revitalização da bacia hidrográfica do rio São Francisco; e projetos de pesquisa.

O eventual saldo positivo desses fundos (superávit financeiro) poderia ser usado livremente pelo governo. Apesar de prometido para ser votado na semana que vem pelo líder do governo, senador Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), a não apresentação formal do texto já começa a ensejar dúvidas sobre a viabilidade do calendário.


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Fabio Graner, Vandson Lima e Fabio Murakawa - de Brasília, 09/12/2020