A alta de 0,89% da inflação oficial em novembro foi a maior para o mês desde 2015, quando o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 1,01%, superou o teto das estimativas do mercado e levou o indicador acumulado em 12 meses a furar a meta de 4% perseguida pelo Banco Central, faltando um mês para o fim do ano. Após novas revisões para cima, economistas esperam que o índice termine 2020 em cerca de 4,5%, mas o resultado mais salgado, de forma geral, não piorou a percepção sobre a dinâmica inflacionária.
Segundo analistas ouvidos pelo Valor, a surpresa para cima, desta vez, ficou bastante concentrada nos alimentos - mais especificamente nas carnes, que aumentaram 6,54% no mês. Esse choque é visto como forte, mas transitório. Ao contrário do ocorrido nas últimas leituras do IPCA, porém, medidas que mostram a tendência subjacente da inflação, como os núcleos, não acompanharam a aceleração do “índice cheio” e até perderam um pouco de fôlego, o que foi considerado uma boa notícia.
Com maior peso na cesta de consumo medida pelo IPCA, o grupo alimentação e bebidas avançou de 1,93% para 2,54% entre outubro e novembro e adicionou 0,53 ponto percentual ao indicador. A parte de alimentação no domicílio aumentou 3,33% na medição mensal, maior ritmo em mais de 15 anos, observa Roberto Secemski, economista-chefe para Brasil do Barclays. Em 12 meses, a inflação dos alimentos em casa atingiu 21,13%.
Apesar de o IPCA “cheio” ter ficado perto do 0,86% estimado pela XP Investimentos, a inflação de proteínas surpreendeu para cima, afirma o economista Vitor Vidal. Essa pressão, de acordo com ele, ainda é explicada pela valorização das commodities e pela escalada do dólar. Como, no entanto, a taxa de câmbio vem se apreciando e deve seguir nessa trajetória, encerrando 2020 em R$ 5,10, os repasses do atacado tendem a perder ímpeto, o que reforça o caráter transitório do choque de carnes, avaliou.
Do lado favorável, a XP previa avanço de 0,56% da média de cinco núcleos de inflação em novembro, dado que ficou abaixo do previsto, com alta de 0,44%, vindo de 0,51% em outubro. Em 12 meses, porém, os núcleos ainda tiveram alta, de 2,43% para 2,64%. Essas medidas são acompanhadas pelo Banco Central e pelos analistas porque mostram a tendência subjacente do IPCA, ao reduzirem ou excluírem o impacto de preços voláteis sobre o índice.
“Fazendo o gancho com a política monetária e o dilema sobre quanto a inflação vai perturbá-la em 2021, essa leitura do IPCA é relativamente benigna. Não é nada que mude o cenário, mas os núcleos bem comportados foram a principal informação”, disse Vidal. Para ele, esses números corroboram a perspectiva da plataforma de investimentos de que o BC não precisará elevar a Selic já no começo de 2021, mas sim a partir do segundo semestre.
Essa também é a visão do Itaú Unibanco, que segue projetando alta de 3,1% para o IPCA ao fim do próximo ano, embora o índice anual deva passar boa parte do ano acima da meta de 3,75%. “O ambiente inflacionário é desafiador. Estamos vivendo um choque bastante forte, mas com razões temporárias”, aponta a economista Julia Passabom, tais como o pagamento do auxílio emergencial, o aumento na cotação de commodities e o dólar elevado.
“A leitura [do IPCA] não foi boa porque estamos em um processo inflacionário relacionado à dinâmica da pandemia, com o pagamento do auxílio emergencial, repasse cambial e alguma reabertura no setor de serviços. Mas esses dados vieram com abertura melhor do que o imaginado”, reforçou a economista, mencionando, além da ligeira descompressão dos núcleos, a perda de fôlego de serviços (0,55% para 0,39%) e de bens industriais (0,97% para 0,66%).
Já Secemski, do Barclays, nota que, apesar da desaceleração mensal da média dos núcleos, a alta de 0,44% foi a maior para um mês de novembro desde 2015 (0,68%). “As medidas subjacentes de inflação deixaram seus ‘pisos’ recentes e estão se movendo mais em linha com as metas do BC, enquanto a economia se recupera e os preços no atacado continuam a mostrar aumentos significativos.”
No mês passado, os transportes foram outro grupo que acelerou mais do que a expectativa, acrescentou o economista, ao passar de 1,19% para 1,33%. Neste segmento, as influências de alta foram combustíveis (2,4%) e automóveis, tanto novos (1,05%) quanto usados (1,25%). Para ele, o encarecimento nos preços de carros sugere que pressões no atacado ainda estão sendo repassados ao varejo.
Para dezembro, os economistas ouvidos estimam avanço mensal entre 1,2% e 1,35% para o IPCA, que deve ser puxado pelo encarecimento da bandeira tarifária das contas de luz. Do lado positivo, o estouro da meta este ano ajuda a inflação a desacelerar em 2021, uma vez que parte do reajuste de tarifas previsto para o próximo ano foi antecipado.
Após a divulgação de novembro, a XP elevou a projeção para a alta do IPCA em 2020, de 4,3% para 4,5%, mas a perspectiva para 2021 foi mantida em 3,5%. Já o Barclays vê riscos de alta em sua estimativa de 3,4% para o período, como sugere o contínuo aumento da inflação ao produtor, alerta Secemski.
Um ponto que ajudou a aliviar as cotações de produtos não alimentícios no mês passado foram as promoções relacionadas à Black Friday, segundo o técnico do IBGE Pedro Kislanov. Os itens televisão, aparelhos de som e produtos de informática, observados juntos, recuou 1,13% em novembro após recuo de 0,51% em outubro. No ano, entretanto, acumulam alta de 15,84% nos preços. Segundo Kislanov, essa sustentação do recuo de preços pelo segundo mês consecutivo está diretamente relacionada às promoções. O item perfume, por sua vez, recuou 1,90% em novembro possivelmente no bojo da Black Friday, mas ainda acumula alta de 2,49% no ano.
Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Arícia Martins e Gabriel Vasconcelos - de São Paulo e do Rio, 09/12/2020

