O setor da construção deve fechar 2022 com crescimento de 7% no PIB setorial no país, ante previsão inicial de 2% para o ano, de acordo com o Sindicato da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP). O crescimento vem sobre uma base forte, já que em 2021 a alta havia sido de 10%.

No entanto, a tendência mais recente é de desaceleração dos indicadores. Para 2023, a entidade projeta alta de 2,4% no PIB do setor.

O resultado mais favorável do que o inicialmente previsto para este ano se deve a melhorias nos indicadores de emprego e de renda. Como explica Ana Maria Castelo, coordenadora de projetos da construção do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV, a inflação mais alta na primeira metade do ano causou um reajuste de salários que se transformou em ganho real de renda no fim do ano.

Na área de materiais de construção, há queda de 8,1% no desempenho do varejo e de 7% da indústria até setembro

Entre janeiro e setembro, as vendas de imóveis novos cresceram 7,9% ante o mesmo período do ano passado, mas houve queda de 1,2% na comercialização de unidades econômicas. Os lançamentos, no mesmo período, cresceram 4,3%, enquanto no segmento econômico a alta foi de apenas 0,6%.

“Se até o ano passado o segmento econômico liderava esse crescimento, neste ano ele se ressentiu do contexto de inflação mais elevada e do grande endividamento das famílias”, afirma Castelo.

A expectativa do setor é que em 2023 a habitação para baixa renda se recupere. É esperado que o novo governo petista modifique o programa para favorecer o acesso das classes mais baixas à habitação.

A questão é como fazer. “Não tem espaço para subsídio no orçamento federal, mas sempre sobra para alguma regulamentação, inversão de prioridade”, diz Eduardo Zaidan, vice-presidente de economia do Sinduscon-SP. “Hoje há o desafio de como o orçamento do FGTS pode ser complementado com o orçamento do próprio governo de forma a focar em famílias de menor renda”, afirma Castelo.

Os juros ainda elevados em 2023, somados ao endividamento das famílias, devem atrapalhar o acesso da classe média à habitação. Os segmentos com capacidade para puxar o setor em 2023, então, são os de baixa e alta renda.

Na área de materiais de construção, há queda de 8,1% no desempenho do varejo e de 7% da indústria até setembro. Para o próximo ano, um ponto positivo para o setor é que o preço das matérias-primas tende a não aumentar, por causa da crise em países desenvolvidos, que compromete a demanda.

Dentro da projeção de 2,4% do PIB da construção em 2023, a entidade prevê crescimento de 5% para o setor de edificações, em desaceleração sobre os 12% de aumento em 2022, alta de 4% para serviços especializados, 1% para consumo “formiguinha”, de varejo, e 1% para o segmento de infraestrutura.

Segundo Castelo, o número para infraestrutura se deve às incertezas sobre a capacidade de investimento público na área.

Já se programando para o próximo ano, o grupo “Construção é +”, formado por 12 entidades do setor da construção, vai entregar à equipe de transição do governo federal, nesta quarta-feira (7), um documento com 14 pautas prioritárias para o segmento.

Para José Carlos Martins, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), uma das entidades do grupo, a “prioridade das prioridades” do setor é ter assegurado um fluxo regular de recursos nos programas do governo. “Falta de garantia traz enorme insegurança aos empresários, que inviabiliza o desenvolvimento de novos projetos, prejudicando a geração de empregos, o crescimento econômico e [causando] aumento nos custos”, diz o documento.

Martins afirma que já teve reuniões com os grupos de transição de habitação, infraestrutura, indústria e emprego, que garantiram que a PEC da Transição vai assegurar recursos, mas a insegurança continua. “Quantas vezes aconteceu isso e daqui a pouco para tudo? Temos que ter medidas perenes, que o que vier de investimento público seja um complemento”.

Um exemplo é o uso do FGTS para financiar a habitação. O documento ressalta a importância de preservar os recursos do fundo de garantia, evitando medidas que ampliem os saques, algo recorrente no último governo.

A segunda prioridade é melhorar a produtividade do setor, com industrialização. “A construção tem que ser mais acessível, rápida e de melhor qualidade”, diz Martins.

Íria Lícia Doniak, presidente da Associação Brasileira da Construção Industrializada de Concreto (Abcic), também no grupo, afirma que a reforma tributária é ponto importante no guarda-chuva da produtividade. De acordo com ela, se busca isonomia tributária entre construção tradicional e industrializada, na qual só a montagem final é feita no canteiro.

Há ainda a demanda por sustentabilidade e incentivos para atingi-la, como a simplificação da aprovação de novas tecnologias para uso em programas habitacionais.

As pautas do setor incluem a criação de um fundo garantidor para perda temporária de renda, incentivo ao mercado secundário de imóveis, criação de um programa de concessões e parcerias público-privadas de municípios, combate à informalidade na construção, a revitalização dos centros urbanos entre outras medidas.


Fonte: Valor Econômico - Empresas, por Ana Luiza Tieghi, Valor — São Paulo, 08/12/2022