Quando surgem os primeiros questionamentos sobre os fortes impactos da alta de juros sobre a atividade econômica, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu manter a estratégia conservadora para dobrar as expectativas de inflação.

Hoje, o colegiado subiu a meta da taxa Selic em 1,5 ponto percentual, de 7,75% ao ano para 9,25% ao ano, dentro do roteiro esperado. Mas não deu nenhuma indicação de que poderá aliviar no próximo encontro, em fevereiro.

Uma parcela dos analistas vinha defendendo que, diante dos dados mais fracos de atividade, o colegiado deixasse pelo menos uma porta aberta para um movimento menos forte na próxima reunião.

O Copom, porém, manteve uma indicação seca de uma nova alta de juros, para 10,75% ao ano, apenas com os avisos em letras miúdas de praxe de que poderá mudar de ideia dependendo da evolução do cenário econômico.

Mas o colegiado não deu sinais, pelo menos no comunicado, de que pretende desacelerar o aperto. Disse que vai continuar na estratégia atual não apenas até que se consolide o processo de desinflação, mas também até que as expectativas de inflação voltem a se ancorar em torno das metas.

Em muitos aspectos, o estilo é muito parecido com o adotado em 2016, quando o BC era presidido por Ilan Goldfajn. Naquele período, a inflação também chegou aos dois dígitos, e houve reclamações sobre o efeito excessivo dos juros na atividade econômica.

Ilan adotou um bordão, muito repetido, que para flexibilizar a política monetária, e olhar também para a atividade, seria preciso primeiro cuidar da ancoragem das expectativas. Assim, dizia, os ganhos no combate à inflação seriam mais permanentes. De fato, foram quatro anos de inflação sob controle.

Hoje, o quadro é de desaceleração na atividade e há algumas vozes que dizem que o Banco Central corre o risco de um “overkill”, ou um excesso de aperto. Mas ainda não temos um claro quadro recessivo, como aconteceu no período Ilan – majoritariamente devido aos erros de política econômica do governo Dilma, e não ao aperto monetário.

Ao descrever o quadro econômico atual, o Copom assume mais uma vez uma postura de pouca preocupação com o tema: a atividade econômica, segundo o comunicado, teve uma “evolução moderadamente abaixo da esperada”.

Na semana passada, o diretor de política econômica do BC, Fabio Kanczuk, havia reduzido a importância da desaceleração econômica na decisão do Copom. Segundo ele, a fraca atividade se devia ao PIB potencial baixo e às incertezas fiscais, que operam como um choque de oferta, reduzindo o crescimento e acelerando a inflação.

O fato é que, por enquanto, as revisões de parte dos analistas econômicos para a atividade não se traduziram numa queda nas projeções de inflação. Se a economia vai cair tanto, há uma inconsistência, talvez devido apenas às expectativas inflacionárias negativas.

A decisão do Copom cumpriu o roteiro básico de análise do colegiado. Tomando como base um cenário de alta de juros para um pico de 11,75% em 2022, com queda a 11,25 até o fim do ano, o colegiado projeta uma inflação bem acima da meta em 2022 e na meta em 2023. Como o Copom mira, com igual peso, esses dois anos, esse fator já exigiriam levar a taxa de juros para mais do que 11,75% ao ano.

Mas o colegiado diz, novamente, que a o balanço de riscos é assimétrico. Ou seja, o Copom atribui chances maiores de que a inflação supere o projetado do que fique abaixo dele. O balanço de riscos não piorou, mas já era bem desfavorável em outubro.

Além disso, o Copom colocou mais uma “camada” de preocupação na sua decisão: a desancoragem das expectativas de inflação de longo prazo. Isso significa uma dose um pouco mais de juro para lidar com esse fato, como, aliás, havia sido antecipado por Kanczuk na semana passada.

O somatório de tudo isso é que, para levar a inflação na meta e para reinar sobre as expectativas, em tese será necessário colocar os juros acima de 11,75% ao ano. Nas circunstâncias atuais, por coerência com projeções e balanço de riscos, o Copom não poderia fazer menos do que sinalizar uma política monetária “significativamente contracionista”.


Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Alex Ribeiro, Valor — São Paulo, 08/12/2021