As companhias que não integrarem as responsabilidades ambiental, social e de governança (ESG, na sigla em inglês) aos processos de tomada de decisões podem não sobreviver às transformações trazidas pelas novas gerações, avaliaram gestores de recursos que participaram do evento Itaú Amazônia ontem. “As empresas que não se atentarem ao ESG, provavelmente, vão ser atropeladas”, resumiu o sócio fundador da Fama Investimentos, Fabio Alperowitch.
A própria continuidade dos negócios dependerá da integração dessas dimensões às estratégias de longo prazo nas organizações, disse o sócio fundador da Constellation Asset Management, Florian Bartunek. “Os parâmetros ESG têm impacto direto na sustentabilidade do negócio.”
De acordo com o gestor da Constellation, “sem esses fatores na cultura da empresa, a chance de o negócio não ser perene, de ter problemas com stakeholders, de perder clientes, ser ‘disruptado’ ou de ter um alto nível de rotatividade aumenta muito”. Na visão de Bartunek, “companhias que não adotam o ESG têm um risco maior e portanto não são um bom investimento”.
O sócio da Fama acrescentou que as mudanças vão acelerar ainda mais conforme ganhe força uma nova geração de clientes. “A nova geração com poder discricionário de consumo vai olhar para as marcas e pensar: essa marca tem preocupação com quantidade de carbono que emite versus a outra que não tem, qual vou comprar? Ou será que vou trabalhar em um lugar onde meu amigo LGBT não tem espaço? As empresas que não têm esse olhar vão ser atropeladas.”
Alperowitch lembrou ainda que não basta aos negócios tomar iniciativas de sustentabilidade, sem integrar de fato esses critérios ao processo decisório. “Muita gente trata o ESG como se fosse algo separado da empresa, ‘um puxadinho’”. Para o gestor, “quem integra, de fato, o ESG contempla nos processos de decisão de todos os stakeholders, como colaboradores, fornecedores, clientes, concorrentes e imprensa, e não só os acionistas”.
De acordo com o chefe da área de estratégia beta e integração ESG da Itaú Asset Management, Renato Eid Tucci, a cobrança relacionada à adoção de práticas sustentáveis vem não apenas de consumidores, mas também dos investidores. “As empresas vão ser pressionadas tanto pelos clientes quanto investidores”, afirmou.
O executivo acrescentou que “para a maioria dos investidores do país olhar as questões ESG faz todo o sentido dentro de um contexto de prazos mais longos para seus investimentos”.
O gestor da Itaú Asset Management, Pedro Guilherme Rupp Quaresma, explicou que, do ponto de vista dos investidores, as dimensões ESG exibem diferentes ramificações e produtos. “São conceitos amplos e usados de forma diferente pelos gestores.”
Quaresma citou como exemplos de estratégias e conceitos, fundos passivos atrelados a índices do gênero e portfólios que excluem setores inteiros, como a indústria de tabaco. “Há ainda fundos que criaram critérios, como um score e só investem nos top 25% de cada setor.” O gestor da Itaú Asset listou também fundos temáticos, que só compram energia limpa, por exemplo, ou carteiras de impacto, com um olhar que une retorno financeiro e benefícios sociais ou ambientais.
Em outro painel, que reuniu os principais executivos dos maiores bancos privados do país, o presidente do Itaú Unibanco, Candido Bracher, alertou sobre os prejuízos trazidos pela piora da percepção estrangeira sobre a degradação ambiental, que vão muito além dos danos aos ecossistemas. O Brasil pode enfrentar diminuição no fluxo de investimentos e até mesmo a interrupção de linhas de crédito, ponderou. Segundo Bracher, executivos brasileiros são “lembrados sistematicamente nos círculos internacionais da responsabilidade” de reagir ante esses problemas.
“Se não absorvermos as tendências globais [de sustentabilidade], investidores vão repensar o posicionamento sobre empresas do Brasil”, disse o presidente do Santander, Sergio Rial. Segundo o executivo, é necessário que as grandes empresas puxem o movimento de alinhamento à tendência mundial de transição da era industrial ao mercado de baixo carbono.
O presidente do Bradesco, Octavio de Lazari, citou que entre 80 e 120 bilhões de toneladas de carbono estão estocadas na floresta amazônica. Tomando como base o mercado europeu de certificados de carbono, isso equivale a quase R$ 20 trilhões. “É muito dinheiro, mas não monetizamos, não conseguimos trabalhar isso”.
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Sérgio Tauhata, Fernanda Bompan e Álvaro Campos — De São Paulo, 08/12/2020

