A inflação apurada pelo Índice Geral de Preços - Disponibilidade Interna (IGP-DI) registrou, no mês passado, a menor taxa em quatro meses, favorecida por dólar mais baixo. O indicador desacelerou de 3,68% para 2,64% entre outubro e novembro, menor patamar desde julho (2,34%) informou ontem a Fundação Getulio Vargas (FGV).
A recente valorização do real frente ao dólar tornou mais baratas commodities no setor atacadista. Isso, na prática, ajudou a reduzir o IGP-DI, explicou o economista da FGV André Braz.
O especialista fez uma ressalva: como cotação da moeda norte-americana tem se mostrado imprevisível em meio à pandemia, não é impossível que o dólar volte a subir. Caso o real volte a se desvalorizar, isto pode conduzir a novos aumentos de preços, entre commodities e, assim, puxar para cima novamente a inflação dos Índices Gerais de Preços (IGPs), alertou ele.
Braz detalhou que, com a ajuda do câmbio, a taxa do Índice de Preços ao Produtor Amplo - Disponibilidade Interna (IPA-DI), 60% do IGP-DI, diminuiu de 4,86% para 3,31%, de outubro para novembro. Isso porque, com cotação do dólar menos alta, houve desaceleração e queda, respectivamente, em soja em grão (de 15,82% para 6,49%) e em minério de ferro (de 0,85% para -2,68%). “A soja tem peso de 8,5% [no IPA]; e o minério representa 9,8%, Ou seja, quase 20% do atacado”, lembrou ele.
Além disso, houve queda de 4,32% no preço de leite in natura em novembro. Esse item foi favorecido por fatores sazonais, devido à época de chuvas, que favorece pasto de gado leiteiro.
O impacto de soja, minério e leite in natura mais baratos no atacado foi tão forte que acabou por inibir, em parte, influência de aumentos de preços no varejo. O Índice de Preços ao Consumidor - Disponibilidade Interna (IPC-DI), 30% do IGP-DI, acelerou de 0,65% pra 0,94%. Ocorreram, em novembro, altas de preços em diferentes classes de despesa, desde alimentos até preços administrados, frisou ele. Esse espalhamento de altas acelerou o núcleo de inflação do varejo, usado para mensurar tendências e que subiu de 0,17% para 0,21%, de outubro para novembro.
O resultado de novembro comprova que tanto o IGP-DI quanto o IPC-DI devem encerrar 2020 com taxas anuais bem acima do esperado, acrescentou o técnico. O IGP-DI em 12 meses até novembro acumula alta de 24,28%; e o IPC-DI, aumento de 4,86%, no mesmo período.
Com perspectiva de inflação em patamar elevado ao término de 2020, em meio à pandemia, Braz também não descarta novos “repiques” no dólar. Isso levaria a novas oscilações nos IGPs, reconheceu ele. “A influência do dólar no atacado [dos IGPs] é muito grande”, afirmou ele.
Uma maior previsibilidade fiscal do governo poderia conduzir a estabilidade mais frequente no dólar e, assim, tornar preços atacadistas mais “comportados”, notou o técnico. Entretanto, até o momento, isso não ocorre, admitiu.
Já o Índice Nacional do Custo da Construção - Disponibilidade Interna (INCC-DI), 10% do IGP-DI, desacelerou de 1,73% para 1,28%.
Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Alessandra Saraiva - Rio, 08/12/2020

