Para uma grande empresa, ver um pequeno fornecedor em apuros financeiros nem sempre é algo fácil de ignorar. Em especial quando aquele fornecedor, por operar em um lugar muito remoto ou com um insumo muito específico, é daqueles que põem em risco a cadeia produtiva inteira.

É para tentar mitigar esse risco que a produtora de celulose Fibria facilita o acesso a crédito bancário para os fornecedores que considera estratégicos. "A gente opera em lugares muito pequenos, onde temos fornecedores muito específicos, únicos, às vezes", diz Marcelo Habibe, tesoureiro da Fibria. Essa saúde do fornecedor é resultado da redução de taxas de juros e na garantia de acesso a crédito.

Proteger a cadeia produtiva não é a única vantagem desse tipo de programa para grandes corporações. As empresas costumam conseguir alongar prazos de pagamento com fornecedores usando os programas como contrapartida. Para o fornecedor, o custo de antecipar um pagamento que será feito em um prazo maior é, em tese, compensado pelo acesso a taxas de juros melhores do que aquelas que teria sozinho. (ver quadro).

A diferença de juros que um fornecedor pode conseguir dentro ou fora de programas do gênero é significativa. Se as taxas de empréstimos para pequenas e médias empresas variam de 3% ao mês sem garantia para até 1,9% com o colateral, os juros em programas de financiamento a fornecedor costumam ficar em 1,2% ao mês, conforme o risco da grande empresa.

Adoniro Cestari, vice-presidente de produtos corporativos do Citi, diz que as companhias costumavam buscar só ganho financeiro ao montar os programas, mas que outros fatores passaram a pesar na decisão nos últimos anos. "Agora, você vê realmente uma preocupação muito grande da grande empresa em garantir que aqueles fornecedores estratégicos tenham acesso à liquidez." Nos últimos quatro anos, o volume de operações nos programas do banco cresceu, em média, 50% por ano.

"Com esse tipo de ferramenta, a empresa consegue estender um pouco do seu crédito para o fornecedor de menor porte", diz Frederico Franco, superintendente de produtos do Citi. Em alguns casos, diz ele, a taxa que o fornecedor consegue dentro do programa pode ser de até um terço do custo de um empréstimo sem garantia.

Do lado dos bancos, o programa é interessante porque traz novas empresas para a carteira da instituição. "É uma linha que me possibilita operar com um cliente que eu normalmente não operaria e que pode ter alguma restrição de crédito", afirma José Ramos Rocha Neto, diretor de empréstimos e financiamentos do Bradesco. A expectativa da instituição é de um crescimento na casa de 20% para a linha em 2014.

Além disso, tais programas representam uma forma de aumentar a capilaridade da instituição. "É um multiplicador da escala do banco e uma oportunidade de eventualmente oferecer outros produtos do portfólio do banco", diz Rocha. O Bradesco tem feito um esforço para expandir o número de empresas-âncora e agora está em busca de empresas médias de elevada qualidade de crédito.

"São programas que temos há bastante tempo, mas que cresceram mais nos últimos dois anos", afirma Fernando Freiberger, chefe da área de banco comercial do HSBC. Pelas suas contas, de outubro de 2012 a outubro de 2014 o volume de crédito concedido na modalidade triplicou no banco. O executivo não abre valores. "O objetivo é crescer entre 30% a 40% nessa linha em 2015", diz. "É uma forma de aprofundar o relacionamento com a empresa-âncora."

Não custa lembrar que esse tipo de operação "consome" o limite de crédito que a empresa-âncora tem no banco em que o fornecedor antecipou um pagamento. Mas como boa parte dessas companhias conta com linhas externas e trabalha com vários bancos, elas conseguem contornar sem dificuldades a redução do limite.


Fonte: Valor, por Felipe Marques e Aline Oyamada, 05/12/2014