A economia brasileira deixou a recessão para trás no terceiro trimestre, com um crescimento do PIB de 7,7% em relação ao trimestre anterior, feito o ajuste sazonal. Foi o maior ritmo de expansão da série iniciada em 1996, mas a alta recorde se deu após o tombo de quase 10% do trimestre anterior, quando a atividade foi atingida em cheio pelo impacto da pandemia da covid-19. Além da fraquíssima base de comparação, os estímulos fiscais generosos, especialmente o auxílio emergencial, contribuíram de modo decisivo para o crescimento. Pelo lado da demanda, o consumo das famílias e o investimento foram os destaques; pelo lado da oferta, a indústria teve a alta mais forte, seguida pelos serviços.

Depois desse crescimento expressivo, a expectativa é de desaceleração do PIB no quarto trimestre, um período em que o auxílio teve valor de R$ 300, metade do montante inicial. Para 2021, uma série de fatores torna o cenário nebuloso: a incerteza fiscal, o risco de recrudescimento da covid-19, a fraqueza do mercado de trabalho e a retirada dos estímulos fiscais - o benefício emergencial, por exemplo, expira neste mês. Do lado positivo, as expectativas mais otimistas em relação a vacinas contra a covid podem dar alento à atividade, especialmente no cenário externo.

A alta forte do terceiro trimestre foi insuficiente para zerar as perdas da pandemia - o PIB ainda ficou 4,1% abaixo do nível do quarto trimestre de 2019, o último a não ser afetado pelo covid-19, segundo informou ontem IBGE.

O crescimento de 7,7% ficou consideravelmente abaixo das projeções dos analistas - a mediana das estimativas dos analistas consultados pelo Valor Data apontava para uma expansão do PIB de 8,8%. Houve, porém, várias revisões dos números anteriores, como ocorre nas divulgações das contas nacionais do terceiro trimestre. O PIB de 2019, por exemplo, teve seu crescimento elevado de 1,1% para 1,4%. O resultado do primeiro trimestre também foi revisado para cima - a queda de 2,5% em relação ao trimestre anterior passou para um recuo de 1,5%. O número do segundo trimestre nessa base de comparação ficou quase idêntico - a retração de 9,7% deu lugar a um tombo de 9,6%. Desse modo, a base de comparação é um pouco mais alta do que antes da revisão. Bancos e consultorias não promoveram mudanças drásticas nas estimativas para o crescimento de 2020 e 2021. Para este ano, as previsão são de uma retração de 4% a 5%; para o ano que vem, há maior divergência nas projeções - há quem estime 2,2%, como o ASA Investments e quem aposte em 4%, como o Credit Suisse e o Itaú Unibanco.

Para o economista Luka Barbosa, do Itaú Unibanco, o resultado do terceiro trimestre confirmou a recuperação desigual entre os setores, com produção industrial e comércio numa retomada em “V” e serviços ainda em ritmo lento. A instituição manteve a expectativa para o PIB de 2020, de queda de 4,1%, e para o quarto trimestre, quando deve mostrar avanço de 2,9% ante os três meses anteriores. “Alguns serviços, que envolvem aglomeração, como bares, restaurantes e serviços públicos de educação e saúde, são a parte da economia que deve se recuperar mais lentamente”, disse Barbosa. Há várias previsões de uma alta do PIB na casa de 2% no quarto trimestre.

No terceiro trimestre, os serviços cresceram 6,3% no terceiro trimestre em relação aos três meses anteriores, depois de terem caído 9,4% no segundo. Já a indústria teve crescimento forte, de 14,8%, depois de ter encolhido 13% no trimestre anterior. O segmento de transformação puxou o setor, com alta de 23,7%, mas que ocorreu após o mergulho de 19,1% nos três meses anteriores. A construção civil também foi bem, com alta de 5,6%. Por fim, ainda pelo lado da oferta, a agropecuária recuou 0,5%.

Pelo lado da demanda, o investimento cresceu 11%, mas a formação bruta de capital fixo (FBCF, medida do que se investe em máquinas e equipamentos, construção civil e inovação) ainda está mais de 27% abaixo do pico atingido no terceiro trimestre de 2013. O consumo das famílias cresceu 7,6%, embalado pelo impulso do auxílio emergencial, que atendeu mais de 67 milhões de pessoas. O consumo do governo avançou 3,5%.

O setor externo teve contribuição positiva para o PIB, uma vez que as exportações tiveram um desempenho melhor que as importações. Enquanto as vendas externas caíram 2,1% em relação ao trimestre anterior, as compras recuaram 9,6%. Nos cálculos do diretor de pesquisa para a América Latina do Goldman Sachs, Alberto Ramos, o setor externo contribuiu com 0,97 ponto percentual para o crescimento do PIB de 7,7% no terceiro trimestre.

A demanda doméstica final, formada pelo consumo das famílias, o consumo do governo e o investimento, excluindo a variação de estoques, cresceu 7,5% no terceiro trimestre em relação ao trimestre anterior, segundo Ramos. No segundo trimestre, havia recuado 11,6%.

“A flexibilização parcial das restrições ao longo do período de julho a setembro e os diversos estímulos monetários, creditícios e principalmente fiscais foram decisivos para a preservação da renda real e a rápida recuperação do comércio, da indústria e dos indicadores de confiança ao longo do período”, dizem os economistas da LCA Consultores, ao tratar do desempenho do terceiro trimestre.

Para 2021, há vários fatores de incerteza. O maior deles é a indefinição sobre o cenário para as contas públicas. Não há certeza se o teto de gastos será respeitado, por exemplo. Outra dúvida é se o auxílio emergencial será mesmo extinto no fim deste ano, ou se será prorrogado por alguns meses, probabilidade que hoje parece pequena. Além disso, há o risco de uma piora mais forte da covid-19, que já mostra crescimento no número de casos e mortes. A vacina, por sua vez, pode ajudar, ainda que haja dúvidas sobre como vai funcionar a imunização no Brasil.

“Embora a velocidade de retomada surpreenda em relação ao projetado no início da pandemia, o resultado reforça o diagnóstico acerca do caráter desigual da recuperação entre setores, o que sinaliza uma retomada ainda passível de incertezas, já que segue sensível a aspectos de ordem econômica, política e sanitária”, resume o economista Thiago Xavier, da Tendências Consultoria Integrada. “No cenário básico, espera-se menor ritmo de expansão nos próximos trimestres, diante do quadro de redução do arsenal anticíclico de combate à pandemia, em um contexto de reação tardia do mercado de trabalho e inflação relativamente pressionada, além da persistência do medo da pandemia como fonte de incerteza e limitação à demanda agregada“, afirma ele.


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Sergio Lamucci, Hugo Passarelli, Alessandra Saraiva, Gabriel Vasconcelos e Rafael Rosas - de São Paulo e do Rio, 04/12/2020