O ano de 2021 terminará com forte crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), algo em torno de 4,6%. A trajetória trimestral, porém, nos conta uma história diferente. Após um primeiro trimestre forte, que deu continuidade à rápida recuperação pós-recessão do ano passado, o PIB passou por leve contração entre o segundo e terceiro trimestres, ainda que com dinâmicas setoriais distintas.

No trimestre que passou, de acordo com o IBGE, a economia brasileira mostrou leve queda de -0,1% após recuo de -0,4% no segundo trimestre, feitos os ajustes sazonais. O resultado dentro do esperado sugere que parte das informações de hoje está incorporada no cenário prospectivo para 2022 do mercado. A abertura confirmou o maior dinamismo do setor de serviços (+1,1%), beneficiado pela continuidade da reabertura e pelo redirecionamento do consumo para mais serviços e menos bens após a reabertura da economia.

O setor industrial mostrou estabilidade com a surpresa na construção civil (+3,9%). Porém, o setor manufatureiro mostrou a queda prevista (-1%), refletindo o esperado arrefecimento pós forte expansão, além dos problemas relacionados à cadeia produtiva, cuja duração vem sendo maior que a imaginada. Por fim, o setor agro trouxe uma queda expressiva de 8%.

Assim, temos uma narrativa menos impressionante do que se esperava tempos atrás, quando o consenso caminhava para algo próximo de 5,5% de crescimento do PIB para este ano. Tal narrativa fica ainda menos atraente quando incorporamos a deterioração nas condições à frente: projetamos um crescimento de apenas 0,5% para o PIB em 2022.

Para o próximo ano, o carregamento estatístico não exercerá um efeito favorável, como ocorreu em 2021. Soma-se a isso o fator dominante, na nossa opinião, relacionado ao ambiente local desafiador.

Em primeiro lugar, a deterioração fiscal teve efeito considerável sobre a percepção de risco soberano nos últimos meses, contaminando as condições financeiras. Segundo, a inflação alta com pressões disseminadas e a elevação das expectativas futuras continuarão alimentando uma postura mais cautelosa do Banco Central, levando a Selic para níveis entre 11% e 12%. Trata-se de um aperto monetário substancial, com juros reais em terreno contracionista.

Terceiro, há um efeito da própria inflação corroendo a renda das famílias. Quarto, a incerteza econômica seguirá elevada, levando a uma postura cautelosa das empresas, afetando investimentos e contratação de mão de obra. Por fim, a eleição presidencial de 2022, com seus debates sobre propostas para a economia, pode reforçar a cautela dos agentes econômicos.

O quadro descrito sugere uma discussão sobre virtual estagnação ou até recessão. Mesmo reconhecendo os riscos baixistas, não incorporamos uma contração econômica no nosso cenário porque vemos alguns mitigadores à frente, menos afetados pelo ambiente doméstico e pelo ciclo de aperto monetário.

Primeiro, esperamos continuidade da reabertura econômica nos próximos trimestres, trazendo recuperação para segmentos do setor de serviços que ainda estão abaixo do nível pré-pandemia. Por serem intensivos em mão de obra, os mesmos exercerão efeito positivo sobre o mercado de trabalho. Segundo, espera-se um ano favorável para o setor agro, enquanto a indústria extrativa pode mostrar maior resiliência. Por fim, temos como hipótese o equacionamento dos problemas nas cadeias produtivas ao longo do ano, com efeito benigno sobre a indústria de transformação.

Adicionalmente, não vemos o cenário global como um determinante negativo. Pelo contrário, teremos contribuição positiva, ainda que menos intensa. 2022 será um ano de desaceleração, mas com sólidos 4,0% de expansão mundial. A retirada de estímulos monetários deve avançar, mas não vemos uma inflação suficientemente desfavorável para tornar esse processo doloroso para o crescimento e a liquidez. Isso é positivo para commodities e para o financiamento de países emergentes.

Enfim, temos um retrato para 2022 envolvendo estagnação e o risco de uma recessão. A piora do ambiente local é dominante, e os fatores mitigadores não serão suficientes para compensar esse efeito.

Eduardo Jarra é economista-chefe da Santander Asset Management


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Eduardo Jarra, 03/12/2021