A emissão de títulos denominados em dólar no mercado internacional realizada ontem pelo Tesouro Nacional atraiu demanda de mais de três vezes a captação efetiva de US$ 2,5 bilhões, afirmou o chefe de mercado de capitais e renda fixa do Citi, Cláudio Matos. O banco foi um dos coordenadores da oferta.
Segundo o executivo, houve um excesso de demanda de mais de US$ 8 bilhões. A captação do Tesouro Nacional ocorreu em três tranches, com a reabertura dos atuais benchmarks de 5 anos (Global 2025), 10 anos (Global 2030) e 30 anos (Global 2050).
A operação liderada pelos bancos Citibank, Santander e ScotiaBank marca o retorno do país ao mercado externo após uma emissão de US$ 3,5 bilhões em junho. Na ocasião foram colocados dois papéis novos: o Global 2025 e o Global 2030, que agora foram reabertos. No caso do Global 2050, a última emissão feita foi em novembro de 2019, de US$ 2,5 bilhões.
O bônus de cinco anos, que tem vencimento em 6 de junho de 2025 e cupom de juros de 2,875% ao ano, teve volume emitido de US$ 500 milhões. A taxa final de retorno para o investidor (yield) foi de 2,200%, bem abaixo do cupom.
O volume da reabertura do título de 10 anos alcançou US$ 1,250 bilhão. Com vencimento em 12 de junho de 2030 e cupom de 3,875% ao ano, os novos papéis foram negociados com yield final de 3,450%. Já o bônus de 30 anos, com vencimento em 14 de janeiro de 2050 e cupom de 4,750%, obteve yield final de 4,500%, com captação de US$ 750 milhões.
“São níveis fantásticos, na primeira vez que o Tesouro faz uma operação de três tranches”, afirmou Matos, do Citi. Para o executivo, a decisão de realizar as emissões com três vencimentos distintos buscou “otimizar a curva e acessar demanda de diferentes perfis de investidores”.
A Secretaria do Tesouro informou que “o objetivo da operação é dar continuidade à estratégia do Tesouro de promover a liquidez da curva de juros soberana em dólar no mercado externo, provendo referência para o setor corporativo, e antecipar financiamento de vencimentos”.
Matos acrescenta que os recursos devem ser destinados ao reperfilamento da dívida, ou seja, vão reforçar o caixa de pagamento dos vencimentos concentrados nos quatro primeiros meses de 2021. Entre janeiro e abril, há um total de R$ 605 bilhões em vencimentos da dívida doméstica federal. Desse volume, cerca de R$ 283 bilhões estão em abril.
De acordo com o executivo do Citi, mais de 200 investidores olharam a operação. “A tranche de 30 anos teve o menor yield da história do governo” para um papel com esse prazo. Os yields finais representaram um pequeno prêmio de 5 pontos-base em relação ao preço dos papéis no mercado secundário antes da lançamento da operação, apontou Matos. “Foi um prêmio bem apertado, o que demonstra que os investidores estão confortáveis com o Brasil e têm apetite para [ativos do] país”, disse.
Apesar da forte demanda, o executivo ponderou que o Tesouro costuma ser disciplinado e preferiu manter o tamanho da operação em lugar de lançar tranches extras. “O Tesouro conseguiu atingir o objetivo de captar US$ 2,5 bilhões, focando em preço.”
Segundo Matos, “a gente vê essa tendência construtiva do final de 2020 sendo carregada para o início de 2021”. Conforme o chefe de mercado de capitais do Citi, os primeiros meses do próximo ano serão uma janela importante para as empresas brasileiras acessarem o mercado internacional.
“Vários fatores ajudam, como notícias em relação a vacina, que começam a tirar a negatividade sobre a recuperação das economias no mundo”, apontou. “A expectativa é que 2021 seja bem ativo e emissores busquem o mercado internacional no início do ano.”
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Edna Simão, Mariana Ribeiro e Sérgio Tauhata - de Brasília e São Paulo, 03/12/2020

