A indústria brasileira de fundos deve contar nos próximos cinco anos com uma maior participação do varejo, os chamados pequenos investidores, e taxas de administração menores diante de um quadro de juros baixos por um período prolongado. As conclusões são de um estudo do FGVcef (Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getulio Vargas).

Foram ouvidos 12 gestores das principais assets brasileiras que, juntas, respondem por 35% de todo o patrimônio líquido do setor. As entrevistas aconteceram em agosto e setembro. Entre esses gestores, a maioria (67%) acredita que as taxas de administração dos fundos de ações e multimercados devem ser reduzidas nos próximos cinco anos, seguindo o movimento dos fundos de renda fixa e DI, que cortaram suas taxas à medida que a Selic foi reduzida ao seu menor patamar histórico, de 2% ao ano atualmente.

De acordo com um dos entrevistados “as taxas devem convergir para o padrão internacional, onde se cobra entre 1% e 1,5% de taxa de administração, acrescido de uma taxa de performance quando o benchmark é superado”.

Para um dos entrevistados, este movimento será mais sentido nos fundos multimercados que utilizam o CDI como referência dos rendimentos. Já para os fundos com estrutura mais complexa, a cobrança de 2% ao ano de taxa de administração e 20% sobre os ganhos acima do índice de referência será mantida nos próximos cinco anos, aponta o estudo.

O estudo observa que a participação de investidores do varejo nos ativos sob gestão dos fundos saiu de 30% em meados de 2010 para 11% atualmente, mas 75% dos gestores entrevistados acreditam que essa parcela deve voltar a crescer nos próximos cinco anos.

Um dos gestores, sob condição de anonimato, disse que a indústria de fundos deixou o varejo de lado nos últimos 15 anos. “Nos próximos cinco anos, os grandes distribuidores vão focar em fundos, pois os bancos não precisarão mais emprestar tanto dinheiro, uma vez que a economia não crescerá muito. Com isso, o varejo deverá crescer pelo menos o dobro do que é hoje”, afirmou.

Para crescer, os fundos de investimentos precisam de ativos suficientemente líquidos para montar e desmontar suas estratégias de forma eficiente. Com apenas cerca de 350 companhias listadas na B3, e mais de 600 gestoras atuando no mercado brasileiro, há quem aponte o risco de não haver ações em volume suficiente para atender tamanha demanda. “A indústria de fundos já está grande demais para a liquidez do mercado acionário”, diz um dos gestores entrevistados, enquanto outro acredita que a oferta deve se adequar, citando as ofertas públicas iniciais de ações (IPOs) e as ofertas subsequentes (follow-on) que estão na fila para irem a mercado.

O lado positivo é que se a oferta de ativos está baixa, há espaço para crescer. “O mercado acionário brasileiro ainda é relativamente pequeno, considerando a bolsa proporcionalmente a nossa economia”, disse um outro gestor que participou da pesquisa.

Com a enxurrada de investidores pessoa física que chegaram à bolsa neste ano - foi 1,5 milhão de novos CPFs até novembro -, a preocupação de um dos gestores é se a alocação desses “novatos” está bem orientada. “Temos que discutir se os CPFs que estão na bolsa estão bem direcionados, se estão bem ajustados ao risco”, diz.

O investidor brasileiro médio tem um percentual muito baixo de sua carteira exposta a ativos no exterior. Esse desenho pode mudar nos próximos cinco anos. Para 50% dos entrevistados esse movimento deverá acontecer de maneira “lenta e gradual” e o crescimento será “muito incipiente”. Já 25% dos gestores entrevistados acreditam que a alocação do investidor médio no exterior permanecerá baixa. “Existem outros ativos que o brasileiro médio prefere investir, como, por exemplo, os fundos imobiliários”, justifica um dos gestores.

Os outros 25% acreditam que o aumento na exposição de ativos no exterior dependerá de vários fatores, como “a regulação e as taxas dos títulos públicos”. O câmbio atual também surge como um impeditivo “se o dólar não estivesse tão alto, esse movimento seria mais evidente”. O dólar acumula valorização de 30,7% contra o real em 2020.


Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Weruska Goeking - de São Paulo, 03/12/2020