Embora a iminente aprovação de vacinas contra a covid-19 e a redução da incerteza política nos EUA tenham levado as bolsas de Nova York a um novembro altamente positivo, com o Dow Jones registrando seu melhor desempenho mensal desde 1987, especialistas apontam que ainda é cedo para comemorar. Os efeitos da pandemia continuarão sendo notados nas contas de empresas e países durante algum tempo.

“Essa crise deve ser observada por fases e a fase que poderemos chamar de pós-crise deve começar só no terceiro ou quarto trimestre de 2021”, disse ao Valor o professor de economia e negócios da Universidade de Michigan, Eric Gordon. Ele lembra que o processo de distribuição das vacinas, após aprovadas, e imunização maciça da população leva tempo.

Segundo o acadêmico, a crise atual é uma das mais graves desde a Grande Depressão, que se arrastou pela década de 1930, e pior do que a de 2008. “A grande crise financeira [de 2008] foi severa, mas a maioria das pessoas não foi afetada diretamente por ela. Quem não trabalhava no sistema financeiro manteve o emprego e assistiu mais como espectador do que hoje”, explicou. “Esta crise afeta grandes e pequenas empresas em mais setores e em todas as localizações geográficas.”

Na visão de Gordon, os bancos estão enfrentando a pandemia em condições aceitáveis graças ao aperto na regulação em consequência da crise anterior, mas outros setores estão sendo duramente atingidos e não voltarão ao que eram antes da covid-19. Aviação civil e hotelaria, segundo ele, são dois dos principais perdedores e devem passar por movimentos de fusão que podem disfarçar a gravidade dos efeitos da pandemia, mas que deixarão menos empregos.

“As companhias aéreas não vão voltar ao normal. A realidade para o setor de aviação civil é especialmente difícil porque não se trata apenas da diminuição da receita, mas também uma mudança no mix dessa receita. Os viajantes de férias geralmente são grandes caçadores de pechinchas e, em um avião, são os que estão voando com a passagem mais barata, enquanto o empresário que viaja a negócios descobriu que aquele deslocamento é caro e talvez desnecessário”, observa Gordon.

Por outro lado, o professor destaca que já está em curso um processo de “destruição criativa”, conceito pelo qual o economista austríaco Joseph Schumpeter resumiu o processo de destruição e posterior reconstrução nas economias de mercado, com novos arranjos dentro da sociedade que levam ao progresso econômico. O setor de entretenimento é o melhor exemplo, diz Gordon. “Estamos vendo aceleração da destruição criativa à medida que a tendência é ir cada vez menos aos cinemas e assistir mais Netflix e outras plataformas de streaming, em uma tela bem grande em nossas casas, onde estamos sentados em nossas cadeiras, consumindo nossa comida.”

A percepção que novas oportunidades começam a se colocar à mesa para os mais atentos é compartilhada por agentes do mercado. Na visão do chefe global de investimentos do Credit Suisse, Michael Strobaek, a pandemia continuará a nos ocupar em 2021. “Os governos terão de enfrentar novos surtos e precisarão distribuir uma vacina para sua população assim que ela estiver disponível. Além disso, as pessoas e as empresas precisarão se adaptar ao que acreditamos ser mudanças permanentes na forma como trabalhamos, aprendemos e vivemos”, disse.

Além de estarem atentos aos sinais de quais empresas irão sobreviver, os investidores precisam considerar as consequências dos esforços sem precedentes dos governos para sustentar a economia. Novos estímulos monetários do Fed e do BCE são esperados para este mês e o presidente eleito dos EUA, Joe Biden, promete um segundo grande pacote fiscal assim que assumir em janeiro.

“Não há mágica para lidar com tanta dívida. Depois que a crise passar, os governos vão cortar gastos ou vão dar calote. É dívida demais e, em algum momento, os governos terão que ser tão responsáveis quanto uma família austera na hora de fazer contas, inclusive os de países desenvolvidos”, diz Gordon. Para ele, a inflação vai voltar a subir nos EUA quando a pandemia virar passado, obrigando o Fed a subir juro antes de 2023.

Para países emergentes, com margem de manobra fiscal já reduzida, como é o caso do Brasil, a situação é ainda mais delicada. “Apesar da recuperação encorajadora, o momento sugere um cenário binário à frente. Se o Brasil não conseguir endereçar os problemas fiscais, os preços dos ativos podem se deteriorar mesmo em um ambiente externo favorável. Por outro lado, se conseguir avançar com reformas e controle dos gastos, os ativos domésticos têm espaço para uma performance melhor que a de seus pares”, disse o estrategista-chefe do Mizuho Bank para Brasil e América Latina, Luciano Rostagno.


Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Rafael Vazquez - de São Paulo, 03/12/2020