O auxílio emergencial mais do que compensou o impacto negativo da pandemia na pobreza e na desigualdade de renda, pelo menos temporariamente, diz relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI). De acordo com o FMI, a depender do critério que for usado, o benefício evitou que entre 14 milhões e 23 milhões de pessoas caíssem abaixo da pobreza no pico da crise.

Ao mesmo tempo, o índice de Gini teria subido de 0,53 para 0,58 sem o auxílio, principalmente porque o grande setor informal brasileiro foi profundamente afetado pela pandemia. O indicador varia de 0 a 1 e, quanto mais próximo de 1, mais desigual é a distribuição de renda.

“Uma vez expirado o auxílio no fim do ano, uma melhora substancial no mercado de trabalho será necessária para evitar um aumento potencialmente forte da pobreza e da desigualdade”, afirma o FMI, num boxe do relatório anual sobre a economia brasileira, divulgado ontem.

Sem o benefício, a taxa de pobreza teria aumentado de 6,7% para 14,6%, o equivalente a 16 milhões de pessoas, diz o relatório. Em vez disso, com o auxílio emergencial, a taxa de pobreza caiu para 5,4%, enquanto o índice de Gini recuou para 0,5. Nos dois casos, são níveis inferiores ao registrado antes da pandemia da covid-19.

O FMI lembra que o auxílio começou em abril, no valor de R$ 600, com 67,7 milhões de potenciais beneficiários, cerca de um terço da população. Citando dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Covid, o relatório destaca que 70% das famílias que estavam entre os 10% de renda mais baixa receberam o auxílio, respondendo por 20% do total de desembolsos. Os 30% mais pobres ficaram com 47% do total. A ajuda corresponde a 150% da renda do trabalho dos 10% mais pobres e a 40% da mediana do rendimento do trabalho pré-covid, diz o FMI.

Em outro boxe, o FMI analisa o impacto da pandemia sobre o mercado de trabalho, observando que setores que são mais intensivos em contato humano, com menos opções para o teletrabalho, sofreram as maiores perdas de emprego de fevereiro a agosto deste ano. “A queda do emprego foi mais pronunciada para os trabalhadores informais, com perda de 7 milhões de postos de trabalhos, comparada a 5,5 milhões no setor privado formal”, nota o Fundo. No setor público, porém, houve aumento de 500 mil empregos.


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Sergio Lamucci - de São Paulo, 03/12/2020