Os persistentes estragos causados pela pandemia de covid-19 levaram a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) a cortar sua projeção de crescimento da economia brasileira para 2021 para 2,6%, ante 3,6% estimados em setembro.
Em seu mais recente relatório, a entidade calcula que a economia brasileira deve se contrair em 6,0% neste ano ante 6,5% previsto antes. Mas incertezas e dificuldades sobre a pandemia e a vacina derrubam as estimativas futuras. Assim, o PIB brasileiro deve crescer 2,6% no ano que vem e 2,2% em 2022.
A OCDE estima que a inflação continuará abaixo da meta e a alta liquidez, com juros baixos recordes, proporcionará apoio aos investimentos. Mas nota que vulnerabilidades fiscais foram exacerbadas pela resposta à crise, e que o déficit público cresceu.
“A retirada das medidas fiscais, como o Auxílio Emergencial, será um grande desafio para o Brasil, num contexto de conjuntura ainda frágil e um desemprego elevado”, diz Jens Arnold, economista responsável na OCDE. A pandemia deve resultar numa alta de 20 pontos percentuais na dívida pública bruta, que atingirá 100% do PIB no fim de 2022. Ou seja, a situação fiscal tornou-se mais complexa.
“Para assegurar a sustentabilidade da dívida pública, será imprescindível que o gasto adicional seja temporário e não se torne permanente”, diz Arnold. “O teto de gastos foi o que permitiu melhorar a confiança, reduzir os juros. Por isso será importante cumprir com o teto de gastos em 2021.”
A resposta fiscal à pandemia no Brasil tem sido uma das mais fortes na região, com medidas discricionárias superando 8% do PIB e forte foco nos mais vulneráveis. Um benefício de emergência temporário atendeu 67 milhões de pessoas. Esse apoio reduziu a pobreza ao mais baixo nível em 40 anos e evitou maior declínio na renda e no consumo no país. Mas a OCDE alerta que o descontentamento social que afetou vários países da América do Sul também pode atingir o Brasil, “possivelmente agravado pela deterioração das condições sociais na pandemia e por escândalos de corrupção”.
Para Arnold, um risco para o Brasil seria uma desaceleração no avanço das reformas, o que teria consequências negativas para o crescimento e os resultados fiscais. “O Brasil tem uma agenda importante de reformas para implementar, como converter os impostos indiretos num IVA [imposto sobre valor agregado], fortalecer a concorrência com reformas regulatórias, maior integração na economia global, melhorar a educação e a capacitação profissional, combater a corrupção, preservar o meio ambiente”, completou.
Fonte: Valor Econômico - Mundo, por Assis Moreira - de Genebra, 02/12/2020

