Cotada para voltar à presidência da Caixa Econômica Federal, a bancária Maria Fernanda Coelho entregou na quarta-feira (30) ao presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) um documento com uma série de propostas, formuladas por um comitê de funcionários, aposentados e ex-dirigentes do banco, pedindo mudanças de atuação e também estruturais na instituição financeira.
De acordo com o documento, ao qual o Valor teve acesso, os funcionários propõem a revisão de 12 diretrizes do banco que visam garantir, dentre outras coisas, a ampliação na concessão de crédito à baixa renda, a renegociação de dívidas das famílias, a retomada do Minha Casa, Minha Vida e o monopólio da Caixa nas loterias, além de uma mudança na cultura interna. Maria Fernanda Coelho comandou o banco de 2006 a 2011.
"São sugestões para o importante papel do banco nos programas sociais, de moradia e geração de empregos", afirmou Lula no Twitter. Durante a campanha, ele disse que os bancos públicos vão mudar a linha de atuação em seu governo. A retomada do Minha Casa Minha Vida e a renegociação de dívidas bancárias e comerciais das famílias fazem parte da lista de promessas feitas pelo presidente.
Em um dos principais itens do documento, os funcionários pedem que a Caixa institua unidades de negócio para atuar na renegociação de dívidas e recuperação de créditos inadimplentes, "por meio de estratégias que propiciem a renegociação de dívidas e limpa nome, com ações de educação financeira e adequação dos pagamentos às condições financeiras dos indivíduos". Foi sugerido a Lula a alteração de normas do Conselho Monetário Nacional (CMN) para utilização de recursos do depósito compulsório para alavancar o crédito.
Nesse sentido, os funcionários também pedem que Lula revise a concessão de crédito consignado para beneficiários do Auxílio Brasil, principalmente na revisão da taxa de juros, em 3,45% ao mês. "Há um risco inegável quanto ao prejuízo na condição das famílias que terão redução no valor do benefício e tornando ainda mais crítica a insegurança alimentar/sobrevivência da população", escreveram.
Marcia Kumer, aposentada do banco e que integrante do comitê, ressaltou que o documento alerta o governo sobre o impacto que essa medida terá no endividamento das famílias e defende a revisão dos contratos para realizar uma renegociação adequada desses débitos. “Em três semanas, a Caixa emprestou R$ 7,5 bilhões de crédito consignado [para beneficiários do Auxílio Brasil]. Foram mais de 2,8 milhões de contratos”, frisou Marcia.
O Comitê Popular em Defesa da Caixa, criado em maio deste ano, ainda sugere o retorno das operações do Programa Minha Casa, Minha Vida, e a consequente alocação de recursos para a faixa 1 do programa, voltada para a baixa renda. Segundo Marcia, que foi coordenadora do PAC-MCMV na Caixa, o atendimento dessas famílias é fundamental para reduzir o déficit habitacional, que supera 5,9 milhões de domicílios, sendo que 46,3% das famílias afetadas possuem renda de até um salário-mínimo.
A atuação da Caixa no crédito imobiliário, dizem os autores do documento, deve ser levada em consideração no desenvolvimento econômico e social, por meio da geração de empregos. Eles citam um estudo da CBIC, de que para cada R$ 1 milhão de investimento, a construção civil cria 7,64 empregos diretos e 11,4 empregos indiretos; que geram R$ 492 mil e R$ 772 mil sobre o PIB, respectivamente.
Em relação às mudanças na instituição, os funcionários pedem uma mudança de cultura, revisão de centralizadoras, matrizes e filiais, e reestruturação da rede. Um dos pedidos é a recriação da vice-presidência de Pessoas para “melhoria do clima”. “Ações que resgatem a au toestima, a humanização da gestão e promova o engajamento dos empregados, com foco na sua valorização e em inibir práticas de assédio de toda ordem, comuns nos últimos anos”, assinalaram os funcionários. Este ano, o ex-presidente Pedro Guimarães, indicado por Jair Bolsonaro à Caixa, pediu demissão após ser acusado de assédio sexual e moral por funcionárias. Ele é investigado e nega as acusações.
Fonte: Valor Econômico - Política, por Edna Simão e Guilherme Pimenta — De Brasília, 01/12/2022

