O pessimismo com a capacidade do governo realizar a tão esperada reforma da Previdência voltou a pesar sobre o mercado financeiro doméstico e deixou uma mancha vermelha nos preços dos ativos. O Ibovespa caiu 1%, mesma variação de alta do dólar. Com o real na contramão de seus pares emergentes pelo segundo dia consecutivo, o Banco Central precisou retornar ao mercado de câmbio depois de uma pausa de dois meses. O BC começa hoje a fazer leilões de rolagem de contratos de swap cambial tradicional - cuja colocação equivale a uma venda de dólares.
Na máxima do dia, a moeda americana deu sinais de que caminha em direção aos R$ 3,30. A alta veio acompanhada de forte volume de negócios, o maior em um mês. Até terça-feira passada, o dólar acumulava queda perto de 2%, mas a disparada dos últimos dois pregões fez a divisa zerar as perdas, para R$ 3,2706. O real no "zero a zero" contrastou com outras divisas emergentes - como peso mexicano, zloty polonês e ringgit malaio, que ganharam mais de 3% no mês.
A pressão no câmbio se estendeu à renda fixa. O juro com vencimento em janeiro de 2023 chegou a subir 11 pontos-base na máxima do dia, cotado a 10,30%. No fim do dia, desacelerou a alta para 10,25%. Mas as diferenças entre as taxas de longo e curto prazos - medida da percepção de risco - foram às alturas e renovaram máximas recordes, num claro sinal da falta de disposição do mercado em fazer apostas favoráveis para o longo prazo.
Na contramão do incansável fôlego de Wall Street, que ontem bateu novas máximas históricas, o Ibovespa sucumbiu. O principal índice das ações domésticas chegou a ameaçar o suporte dos 71 mil pontos, antes de fechar aos 71.971 pontos, em queda de 1%. A bolsa perdeu 3,15% em novembro, pior desempenho desde maio - quando investidores deflagraram uma onda de venda de papéis na esteira das delações da JBS contra o presidente Michel Temer.
Com a sangria da última semana de novembro, uma das várias dúvidas de investidores é qual o potencial de piora do mercado caso o governo não consiga aprovar o texto da reforma da Previdência até o fim do ano. Não se percebe um consenso claro, mas analistas concordam que a confirmação de uma "não reforma" teria força, sim, para pressionar mais os preços. No caso do dólar, Ronaldo Patah, estrategista do UBS Wealth Management, lembra que dezembro costuma experimentar aceleração de remessas de lucros e dividendos, o que potencialmente reduzirá a oferta de moeda no mercado local - portanto, reforçando a demanda compradora por dólares.
Ontem, declarações do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), em eventos em São Paulo, fracassaram em acalmar os ânimos dos agentes financeiros. Em evento realizado pelo banco J.P. Morgan, Maia repetiu que o governo não conta com os 308 votos necessários para aprovar o projeto. Afirmação assustou os analistas, considerando-se que falta menos de uma semana para a data prevista para votação do texto. Se esse prazo for descumprido, o governo fica sem tempo hábil para submeter o projeto ainda neste ano ao Congresso. Consultas informais indicam que um terço da comunidade do mercado financeiro ainda acredita, pelo menos, na aprovação da idade mínima para aposentaria ainda neste ano. Cerca de metade, porém, trabalha com aprovação apenas para 2019, passada a volatilidade associada às eleições do ano que vem.
Mas, com elementos sazonais a pesar sobre os preços, alguns agentes questionam o espaço adicional para um movimento tão intenso de compra de taxa de juros e de dólar como o visto recentemente. "O dólar subiu quase 10 centavos em dois dias. Não me parece razoável pensar que a moeda vai continuar nesse ritmo, até porque uma boa parte do mercado já não acreditava mesmo na aprovação da reforma para agora", diz o profissional de uma gestora bastante atuante no mercado cambial. "O dólar sobe, sim, mas muito mais por falta de venda, que acaba levando o comprador inicial a buscar [moeda] no mercado", completou. Essa demanda pode ser satisfeita agora que o Banco Central começará as rolagens de swaps cambiais.
O BC vai ofertar hoje 14 mil papéis distribuídos entre três vencimentos. Mantido esse ritmo até o fim de dezembro, o BNP Paribas calcula que a autoridade monetária postergará o lote integral de US$ 9,638 bilhões a vencer em 2 de janeiro. No total, o estoque de swaps é de US$ 23,794 bilhões.
Para o economista-chefe do Banco Votoratim, Roberto Padovani, a extensão da alta do dólar depende em maior peso do cenário externo que dos próprios ruídos locais. Por ora, a perspectiva é que a liquidez internacional siga ampla, o que amortece momentos de alta da cotação. Até por isso, ele mantém a estimativa de que o dólar terminará o ano em R$ 3,20 e deve subir - com bastante volatilidade - para R$ 3,40 em 2018.
"Mesmo se a reforma da Previdência desandar nas próximas semanas, o Federal Reserve pode dar sinais de que os juros não devem subir tanto e o mercado acaba minimizando o impacto local", afirma Padovani. "Não acho que a não aprovação da reforma seja fator relevante para o dólar ganhar dinâmica própria", diz.
O UBS Wealth Management também evita mudanças nas projeções para o câmbio neste momento e ainda trabalha com dólar a R$ 3,10 no período até o fim de janeiro. A casa segue com estimativa de Selic de 7% para o fim de 2017 e de 2018. "Se nada for aprovado agora em dezembro, então vamos reavaliar nossas premissas", diz Patah
Fonte: Valor - Finanças, por José de Castro, Lucas Hirata, Juliana Machado e Lucinda Pinto, 01/12/2017

