O repique inflacionário atual tem impactos também na atividade econômica, segundo avaliação da consultoria AC Lacerda e Associados. A leitura é que, em um contexto de deterioração do mercado de trabalho e queda da renda, as famílias sofrem aumento expressivo no seu custo de vida, sobretudo de alimentação e moradia.
Além disso, as empresas, principalmente industriais, estão tendo elevação de custos, o que piora resultados operacionais e financeiros. “O consumo das famílias e o desempenho da produção industrial estão sendo afetados fortemente, o que diminui o ritmo potencial de retomada da economia”, aponta um dos relatórios da AC Lacerda, que tratou do tema da inflação em dois documentos divulgados neste mês.
“Em um contexto de deterioração do mercado de trabalho e queda da renda, as famílias estão sofrendo um aumento expressivo no seu custo de vida, sobretudo de alimentação. Ou seja, o aumento dos preços de alimentos ocorre justamente em um momento de agravamento da crise econômica e suas consequências, deteriorando ainda mais as condições de vida da população, sobretudo a da parcela mais vulnerável”, acrescenta a consultoria
Para o sócio da AC Lacerda e presidente do Conselho Federal de Economia, Antônio Corrêa de Lacerda, esse movimento dos preços joga contra a recuperação, pois significa capacidade de consumo menor das famílias, tanto da classe média como dos mais pobres.
Ele defende a continuidade do auxílio emergencial no início do ano que vem como forma de preservar algum poder de compra para as classes de menor aquisitivo. “É uma equação complicada, não é fácil, mas a pior solução seria se prender à ortodoxia, ceder às pressões do mercado e não prorrogar o auxílio, o que tornaria o quadro muito difícil”, afirmou.
Para o economista, a despeito de o repique inflacionário estar prejudicando a renda e já afetando o nível de atividade, também não seria o caso de o Banco Central sinalizar alta de juros.
“A pior solução seria subir juros. A pressão inflacionária vem de alimentos. Vemos muito mais de falta de coordenação, como a falta de estoques reguladores, do que problema estrutural”, disse. “Mas a pior decisão seria subir juros, porque tem hiato grande do produto, ociosidade nas fábricas, desemprego, e subir os juros não anularia a pressão de preços.”
A consultoria sugere “uma análise de mercado e do comportamento dos preços, sobretudo de itens que integram a cesta básica, especialmente do óleo de soja”, para que se busque combater a concentração de mercado, que facilitaria aumentos indevidos de preços. “É imprescindível evitar que as condições do mercado desses bens favoreçam, via aumento da oligopolização e concentração, a ampliação do poder de formação de preços por parte dos ofertantes e a possibilidade de exercício coordenado (de forma tácita) de poder de mercado em uma estrutura de oligopólio”, diz o relatório, assinado também por André Paiva Ramos.
Segundo o texto, a inflação tem impacto desigual sobre os diversos setores, afetando principalmente a parcela da população de menor poder aquisitivo. “Grande parte dessa população de baixa renda direciona parcela expressiva do seu rendimento para consumo de itens básicos de subsistência”, afirma o texto. “Desta forma, uma análise da estrutura e das condições mercado de produtos que integram a cesta básica deve considerar as características dos demandantes, especialmente pelo fato de contemplar grande parcela da população brasileira que é vulnerável a aumentos nos preços e tem dificuldades de acesso a esses produtos.”
Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Fabio Graner - de Brasília, 30/11/2020

