No momento em que as projeções do mercado para os preços ao consumidor em 2021 têm sido revisadas para cima, cresce entre analistas a percepção de que o Banco Central deveria adotar um tom mais cauteloso em relação às perspectivas para a inflação. O consenso do mercado aponta para o IPCA em 3,40% no próximo ano, de acordo com o Boletim Focus, nível acima do observado no início de outubro (3,02%). Alguns economistas, inclusive, já projetam o IPCA acima do centro da meta do BC, de 3,75%, mas não esperam um cenário em que a inflação fique fora de controle.
“O choque que estamos vendo é temporário, mas também é significativo e pode se tornar um problema maior para o BC, que precisa acompanhar ao longo dos próximos meses a evolução dos preços. Estamos falando de uma pressão forte e intensa que, dadas as condições que vemos para o próximo ano, podem tornar a inflação preocupante”, afirma Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados. “Ninguém está falando de um descontrole inflacionário.”
O economista diz acreditar que o BC começará a normalizar a política monetária a partir de junho, depois de leituras bastante significativas de inflação no início do próximo ano, com o IPCA em níveis superiores a 5% em maio. Vale nota que a comunicação recente da autoridade monetária tem enfatizado o caráter temporário do choque nos preços de alimentos e avalia que “o BC parece muito tranquilo, até um pouco mais do que gostaríamos de ver”. Em seu cenário, a Selic deve encerrar 2021 em 3,5%.
Em entrevista ao “SBT” na semana passada, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, reforçou o caráter temporário das pressões inflacionárias recentes e afirmou que “os efeitos tendem a diminuir, mas não significa que o BC não esteja vigilante e olhando para a inflação”.
As divisões no mercado em relação às perspectivas para a inflação foram reveladas pelo próprio presidente do BC que, em evento no último dia 17, disse que um grupo de economistas começa a se preocupar com a inflação, enquanto outro grupo entende que é um efeito temporário e que deve ter arrefecimento.
Integrante do primeiro grupo, a economista-chefe da ARX, Elisa Machado, projeta o IPCA em 3,9% e se diz atenta até mesmo às dinâmicas do mercado de inflação implícita. As taxas de inflação medidas pelas NTN-Bs para agosto de 2022 e maio de 2023 estão em níveis acima de 4%. “É uma informação relevante e mostra uma desconfiança de que a gente pode ter uma inflação acima do centro da meta.”
Para a economista, é necessário que o BC comece a ajustar o discurso “para contemplar a possibilidade de mudança no perfil da inflação, com algum tipo de contaminação adicional nos preços em um ambiente de continuidade dos estímulos fiscais”. No cenário básico da ARX, o processo de normalização monetária deve ter início no segundo trimestre, com a Selic chegando ao fim do ano em 4,5%.
Já na visão dos economistas Carlos Kawall, Gustavo Ribeiro e Leonardo Costa, do ASA Investments, “a premissa de que o choque de curto prazo cause inflação persistentemente elevada nos parece heroica”. Em relatório enviado a clientes, eles destacam que o hiato do produto (diferença entre o PIB e o seu potencial) deve prevalecer sobre os choques inflacionários, “como vimos no passado recente”.
Eles notam que, entre 2017 e 2019, a média dos núcleos de inflação, que visa capturar eventuais contaminações de choque sobre a inflação, foi de cerca de 3%, e a expectativa do ASA é a de que essa medida fique em 2,5% na média de 2020 e 2021. “Descontados os movimentos mais voláteis, observamos a resistência dos efeitos deletérios da pandemia sobre o mercado de trabalho - que observa taxa de desemprego de 14,6% até setembro, com forte queda da população ocupada”, afirmam.
Por outro lado, a economista-chefe da Armor Capital, Andrea Damico, ressalta a inflação no atacado em níveis bastante expressivos. O cenário básico da gestora abarca um IPCA de 4% no próximo ano, acima do centro da meta. “Em nossa defesa, esse número mais pressionado passa pelo choque dos preços no atacado que temos visto neste ano. O grande ponto que estamos discutindo é o nível do choque no atacado, que se dá de forma muito expressiva”, diz.
“O núcleo do IPA industrial acima de 2% indica que há repasse de preços já nas etapas finais da cadeia. Esse repasse já está batendo à porta dos consumidores. Por isso, na nossa visão, esse repasse não acontecerá só neste ano, mas também em 2021, gerando uma pressão forte de bens industriais nos primeiros meses do ano”, projeta.
A Armor Capital estima a Selic em 4% em dezembro de 2021 como fruto de um ciclo de normalização monetária que terá início no segundo trimestre. “A questão é abandonar o juro real negativo. Na nossa visão, a inflação em maio do próximo ano deve chegar a 5,75%. Se o BC não começar a elevar os juros, estamos falando de uma taxa real em níveis ainda muito baixos”, diz a economista.
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Victor Rezende - de São Paulo, 30/11/2020

