A inflação baixa e a economia ainda parada faz com que economistas comecem a levantar a possibilidade de novo corte na taxa de juros. Surge o questionamento de onde seria a taxa de juros neutra, diante dos índices de preços, que continuam surpreendendo para baixo, as expectativas ancoradas e a economia ainda está com grande capacidade ociosa.
Em encontro trimestral entre o Banco Central e economistas, um grupo reduzido de analistas já defende a possibilidade de corte da taxa básica de juros em algum momento de 2019. Começam a surgir algumas casas que enxergam o juro real mais baixo e defendem um estimulo adicional da economia, de acordo com relatos. As discussões da reunião servem de base para formulação do relatório trimestral de inflação. A maioria dos economistas aponta, entretanto, que é cedo para mexer na política monetária e o juro básico deve ficar parado por algum tempo.
?O juro está rodando muito baixo e a economia não reage, dando elementos para acreditar que o juro real seria menor do que acreditamos. E isso abre espaço para novos cortes de juros?, diz uma fonte que participou nesta quinta-feira (29) do encontro trimestral entre o Banco Central e economistas. Outro profissional confirma a leitura e diz que, atualmente, a principal dúvida não é mais quando sobe, mas a possibilidade de cair.
Mas a visão de corte não é um consenso e muitos acreditam que talvez não valha a pena assumir o risco de aceleração na inflação caso aumente o prêmio de risco no câmbio em decorrência de algum fator global ou local. A maior parte dos profissionais já considera difícil que se faça alguma elevação na taxa em 2019. ?Apesar de esperar recuperação da economia em 2019, o hiato do produto está muito aberto e, por isso, o cenário de inflação vai continuar favorável. O BC deve manter a taxa de juros estável por muito tempo?, disse uma fonte que participou do encontro.
Previdência
A grande dúvida para os profissionais é como fica a reforma da Previdência quando o próximo governo assumir. Apesar de o risco da eleição ter passado, ninguém sabe ao certo o que vai acontecer em relação às reformas, o que entra na conta. Mas todos esperam que exista algum avanço no ano que vem, segundo um profissional. ?O espaço de tolerância vai até meados do ano que vem com alguma tranquilidade?, completa.
Segundo um participante, os representantes de bancos e corretoras presentes questionaram se ainda é o momento de manter estímulos monetários no Brasil ou mesmo de reduzi-los, porque a inflação, na percepção do mercado, está bastante ancorada. O BC, no entanto, não deu indicativos sobre isso. Para essa fonte, a posição da autoridade monetária ainda é de expectativas ancoradas para a inflação, ?mas com muito pé no chão e com certa cautela?. ?É em linha com o que o BC já vem demonstrando atualmente, técnico e atento?, diz.
Sendo assim, um ponto consensual, de acordo com participantes do evento, foi o reconhecimento de que o cenário para inflação é tranquilo, dado o hiato do produto que está bem aberto. ?Não há preocupação com inflação?, disse um interlocutor.
Do lado do BC quem participou do evento foram os diretores Tiago Berriel (Assuntos Internacionais) e Carlos Viana (Política Econômica). Mas, de acordo com relatos, eles não deram nenhum sinal nem fizeram qualquer colocação sobre política monetária.
Outro ponto de discussão foi o ritmo de atividade econômica. Os participantes se mostraram bastante divididos entre a expectativa de expansão de 2% ou 3% da economia. Os grupos estão bem divididos, agora, aponta um interlocutor. A dúvida é se tem potencial para crescer mais forte. Alguns participantes estão olhando para balanços de empresas, expansão do crédito, melhores posições financeiras. Outros já dão mais importância para a necessidade de reformas.
Para um dos participantes, o mercado parece menos preocupado também com os riscos internacionais nesse momento, mas a expectativa, agora, fica para a próxima administração do BC, a ter início no próximo ano.
Fonte: Valor - Finanças, por Daniela Meibak, Lucas Hirata e Juliana Machado, 29/11/2018

