Em uma semana considerada chave para a definição da reforma da Previdência, a desconfiança com o avanço da proposta volta a pesar sobre os mercados financeiros domésticos, limitando a disposição dos investidores em assumir riscos, mesmo com o ambiente externo mais favorável a emergentes. Nesse cenário, é o comportamento dos juros futuros o que evidencia mais claramente essa cautela.
O tempo joga contra o governo, que já revelou a intenção de colocar a medida para votação na Câmara na semana que vem. As dúvidas sobre o sucesso desse esforço se traduzem no aumento da inclinação da curva de juros, que mede o prêmio exigido para aplicações em horizontes estendidos. A diferença entre o DI de janeiro de 2023 e o DI de janeiro de 2019 chegou a testar os 3 pontos percentuais ontem, antes de ficar em 2,98 pontos, ainda acima dos 2,97 pontos de sexta.
Ontem na BM&F, o juro com vencimento em janeiro de 2023 resistiu nos dois dígitos, enquanto as taxas mais curtas recuaram com mais força. A dificuldade de investidores em "vender taxa" fica ainda mais evidente nos vértices mais longos. O DI de janeiro de 2027, por exemplo, ficou praticamente estável ontem, cotado a 10,63% ao ano, num dia em que o dólar caiu 0,39%, a R$ 3,2196, mínima em cinco semanas.
O juro longo mais alto e o prêmio embutido na curva ainda justificam a busca por títulos públicos com prazos estendidos. De acordo com o profissional de uma corretora bastante ativa no segmento, a demanda pelos papéis - como Notas do Tesouro Nacional-Série F (NTN-F, título prefixado) - para 2027 tem sido amparada apesar do ambiente de incertezas.
O movimento tem chamado atenção desde o mês passado, conforme descreveu o coordenador-geral de operações da dívida pública, Leandro Secunho. Para ele, esse fator explica a compra líquida de ativos pelo não residente, que ampliou a participação na dívida de R$ 416,33 bilhões para R$ 423,23 bilhões entre setembro e outubro.
Para tentar medir a sensibilidade do mercado ao debate sobre a reforma da Previdência, Raphael Figueredo, da Eleven Financial Research, criou um índice que contabiliza o número de citações à reforma da Previdência no noticiário brasileiro com o objetivo de fazer uma correlação entre esse indicador e o comportamento dos DIs. Ele observa que esse índice vem subindo desde outubro e atualmente retoma os níveis do final de junho. Na última sexta-feira, o índice subiu até 340 pontos, comparáveis aos 343 pontos de 5 de junho, época em que este noticiário começava a perder espaço para temas como corrupção e delações.
A resposta dos ativos - positiva ou negativa - à oscilação do índice depende da percepção sobre a aprovação. Desta vez, a leitura do especialista é que a curva de juros indica que ainda há chance de aprovação da reforma, mas "muito baixa". Ao contrário do movimento mais positivo, visto antes das delações de executivos da JBS, agora a pontuação do índice vem junto do aumento do prêmio nos DIs mais longos. "O mercado parece estar bem cauteloso, mas não pessimista", resume Figueredo.
O discurso no governo e de integrantes da base é que há espaço para votar a reforma ainda neste ano na Câmara e concluir o processo no Senado no começo de 2018. A consultoria Eurasia alerta, contudo, que o anúncio de datas provavelmente faz parte do processo de convencimento de políticos, não uma evidência de obtenção de apoio. O texto precisa de 308 votos para ser aprovado na Câmara. (Colaborou José de Castro)
Fonte: Valor - Finanças, por Lucas Hirata, 28/11/2017

