As ondas de otimismo dos mercados financeiros recentes e a atual diferem. Há no curto prazo a possibilidade de vacinação segura em massa contra a covid-19 e ela também chegou à bolsa brasileira. Com o ingresso de R$ 26,7 bilhões até o dia 23, o Ibovespa alcançou o maior nível de pontos em nove meses e acumulou alta de 16,85% no mês, a maior do ano. A distensão dos mercados foi ampliada pela vitória de Joe Biden e a saída de cena de um fator maiúsculo de instabilidade, o presidente Donald Trump. Os mercados olham à frente com confiança, mas podem mudar de ideia. No caso do Brasil, o movimento de alta não parece sustentável.
Com a principal arma para assegurar a volta à normalidade econômica e social à mão - vacinas seguras e eficientes -, a busca por rentabilidade levantou as bolsas de países sob desconfiança e com desequilíbrios econômicos. A bolsa brasileira (em dólar) foi a que mais se valorizou, com 24,81%, seguida pela da instável Turquia (24%), do México, Rússia e África do Sul. À medida que os preços dos ativos se realocam haverá diferenciação, mas o movimento de aceitação do risco não vem dos fundamentos destes países, mas de fora.
Os países emergentes subiram na escala de atratividade dos investidores externos, com o índice MSCI de bolsas subindo 50% em relação ao vale de março, durante a pandemia. Eles despejaram US$ 22 bilhões nos mercados de ações apenas em novembro, segundo o IIF (FT, ontem). Pesquisa do Bank of America revela que um em cada dois administradores de fundos colocou os emergentes no topo da lista de prioridades.
Os investidores estão colocando preços em ativos com base naquilo que pode dar certo em um mundo que se livrará da covid-19 possivelmente em 2021. Reavaliarão suas premissas assim que algo der errado, e há boas doses de risco à frente. Mais estímulos fiscais e continuidade ou ampliação dos estímulos monetários com os democratas no poder nos EUA deveriam assegurar, por exemplo, a queda do dólar, que beneficiaria os emergentes em geral e os mais atolados em dívidas em particular (não é o caso do Brasil), além de dar alívio a dívidas das empresas.
No entanto, o contágio da covid-19 está se intensificando na Europa, nos Estados Unidos e, possivelmente, no Brasil. Ainda que as medidas de contenção sejam agora menos severas e provoquem menores danos econômicos, retardarão a retomada, enfraquecendo-a no quarto trimestre. A perspectiva de um Senado republicano nos EUA, se concretizada, tornará bem mais difícil a aprovação de pacotes fiscais à altura das necessidades, como ocorreu em novembro.
Mesmo em um cenário em que tudo vá bem, pode haver instabilidade. Com a vacina, o setor de serviços, que tem reagido com menor intensidade que a produção na retomada, deverá encontrar seu ritmo normal, o que torna possível uma antecipação no calendário da inflação e reversão dos sinais do Fed de que irá com juros perto do zero até 2024. Com recuperação mais robusta, a volta da simples especulação sobre quando o Fed voltará a elevar os juros tende a provocar sobressaltos maiores em um mundo muito mais endividado do que antes da pandemia.
No curto prazo, o otimismo dos mercados é benéfico ao Brasil. A queda do dólar, cuja duração oscilará ao sabor das soluções fiscais que surgirem no horizonte, pode reverter parte da forte pressão sobre os preços em um momento em que a alta da inflação se mostra mais prolongada do que o previsto - embora distante da meta. A busca do risco ajuda a rolagem da dívida pública. Em outubro o volume da dívida mobiliária interna em mãos de investidores estrangeiros já subiu de 9,44% para 9,79%, com aporte de R$ 25 bilhões.
Com algum arrefecimento da pressão cambial sobre a inflação, os juros poderão continuar por mais tempo em seus baixos níveis atuais e a rolagem da dívida se tornar menos custosa e mais suave do que foi nos últimos meses. No entanto, os juros longos se descolaram dos curtos, sinalizando que a Selic a 2% não é sustentável e que a inflação será maior, ambos sustentados pela desconfiança sobre a sustentabilidade fiscal do Brasil. Essa desconfiança só abrandará quando cessar (se cessar) a indecisão do governo, especialmente a do presidente, sobre rumos para as contas fiscais, o teto de gastos (ou alternativa crível a ele) e as reformas, que não andam.
É provável que mais uma folga dada pelo cenário externo seja desperdiçada, embora seja mais uma oportunidade de acertar o prumo e voltar ao crescimento.
Fonte: Valor Econômico - Opinião, 26/11/2020

