A retomada da atividade econômica dá sinais de arrefecimento no quarto trimestre, em meio às incertezas no campo fiscal e risco de nova onda da covid-19. Além disso, a melhora da confiança dos consumidores estagnou, o que aponta para um adiamento das decisões de consumo, sobretudo entre os de renda mais baixa, nublando o cenário para os próximos meses e para 2021. O diagnóstico consta da edição de novembro do Boletim Macro, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), antecipado ao Valor.

Para o terceiro trimestre, segue a expectativa de forte recuperação do Produto Interno Bruto (PIB) após a retração da economia de 9,7% nos três meses imediatamente anteriores.

O boletim elevou levemente a projeção para o PIB do período, que deve mostrar alta de 7,4% ante o segundo trimestre, feitos os ajustes, ante e 7,1% na edição anterior. No ano, a queda projetada do PIB passou de 5,1% para 5%.

O ajuste foi puxado principalmente por resultados melhores no setor industrial e também em serviços de intermediação financeira e transportes.

“É um resultado bom, com crescimento no terceiro trimestre na margem, mas ainda sem compensar as perdas da crise. Novamente, o setor de serviços vai ser o destaque negativo. Essa recessão é muito diferente de qualquer outra, com muito heterogeneidade entre os segmentos”, diz Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro.

O trecho sobre conjuntura do documento, também assinado pela pesquisadora Luana Miranda, destaca que a indústria e o varejo já retornaram ao patamar pré-covid, ao passo que o setor de serviços permanecia, em setembro, 8% abaixo do nível de fevereiro. “Há, ainda, diferenças entre os subsetores. O principal destaque negativo é a categoria de serviços prestados às famílias, cuja atividade se encontra 36% abaixo do nível pré-crise”, afirmam as economistas.

De acordo com Silvia, as tradicionais revisões do PIB do ano anterior, realizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sempre no terceiro trimestre, também podem trazer alguma surpresa negativa, por causa da base comparativa. O Monitor do PIB, também elaborado pelo Ibre/FGV, estima que a alta do PIB de 2019 pode ser atualizada de 1,1% para 1,6%.

“Como tem revisão para trás, o PIB do terceiro trimestre pode surpreender e ter um interanual mais negativo”, explica Silvia. O Ibre projeta recuo de 4,9% da atividade nessa comparação. O IBGE divulga o PIB do terceiro trimestre em 3 de dezembro.

A partir de uma pergunta extra incluída na Sondagem do Consumidor de outubro, o Ibre/FGV identificou que o medo de desemprego (ou dificuldade de se obter uma colocação), a incerteza sobre a pandemia e a formação de poupança precaucional são os principais fatores que têm levado os consumidores a postergar o consumo de bens e serviços.

“Cerca de 62% dos consumidores estão adiando a compra de bens e serviços, uma tendência ainda mais forte entre consumidores de faixas de renda mais baixas (66,8% e 68,2%, respectivamente)”, destacam os pesquisadores Aloisio Campelo Jr, Rodolpho Tobler e Viviane Seda Bittencourt, na parte sobre confiança do Boletim Macro.

As faixas de renda da população também têm percepção diferente sobre a situação financeira do momento. Nas famílias da faixa de renda 1, com renda até R$ 2,1 mil, o índice de situação financeira atual caiu de 74 para 71 pontos de setembro para outubro, e na faixa 2 (renda de R$ 2,1 mil a R$ 4,8 mil), recuou de 55,5 para 54,1 pontos - ambos com ajuste sazonal.

O primeiro grupo é, provavelmente, formado em grande medida por beneficiários do auxílio emergencial do governo federal, agora reduzido à metade do valor inicial, para R$ 300. Já o segundo inclui famílias de baixa renda, mas não pobres, faixa da população também mais sujeita ao emprego informal.

Na via inversa, o indicador sobre a situação financeira subiu entre os brasileiros com renda entre R$ 4,8 mil e R$ 9,6 mil, de 78,2 pontos para 81,4 pontos na passagem de setembro a outubro. Já entre os com rendimento acima de R$ 9,6 mil, houve leve baixa, de 74,6 para 74,2 pontos.

“A redução do auxílio emergencial, em conjunto com a aceleração da inflação, as incertezas relacionadas à recuperação do mercado de trabalho e a piora recente das condições financeiras, deve afetar o ritmo da recuperação da atividade no quarto trimestre”, afirmam Silvia e Luana.

O movimento foi observado a partir de dados Cielo sobre faturamento nominal de vendas de bens duráveis e não duráveis. “Em setembro, o faturamento nominal referente aos bens duráveis encontrava-se 2,4% acima do período pré-covid; em outubro, essa taxa se reduziu para 1,6%. Já no caso dos bens não duráveis, houve desaceleração de 5,5% em setembro para 3,5% em outubro”, dizem as economistas.


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Hugo Passarelli - de São Paulo, 26/11/2020