Depois de um crescimento frustrante da atividade no segundo trimestre, o Produto Interno Bruto (PIB) do país deve avançar com mais força no terceiro. Não quer dizer, contudo, que a economia engatou uma recuperação mais forte. O impulso deve ser provocado essencialmente pela fraca base de comparação com o período anterior, quando a greve dos caminhoneiros parou o país por 11 dias. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgará o dado na sexta-feira, dia 30 de novembro.
Na média, as estimativas de 21 consultorias e instituições financeiras consultadas pelo Valor Data apontam crescimento de 0,7% do terceiro trimestre em relação aos três meses anteriores, em que o PIB registrou alta de apenas 0,2% sobre os primeiro três meses deste ano, feitos os ajustes sazonais. O intervalo das projeções vai de 0,4% a 1%. Na comparação com o mesmo período do ano passado, a expectativa média é de um crescimento de 1,6%.
"Trata-se de um efeito compensação. Essa aceleração tem a ver com o impacto da greve, em maio, que distorceu a atividade no segundo trimestre, tanto na demanda quanto no setor externo", afirma Mauricio Oreng, economista-chefe do Rabobank no Brasil. A economia, segundo ele, continua melhorando, mas de forma gradual. A estimativa do banco é de expansão de 0,9% no terceiro trimestre, sobre o segundo. Para o quarto trimestre, a expectativa é de uma taxa menor de crescimento, de 0,3%.
Oreng observa que, anualizado, o crescimento de 0,9% implicaria avanço de 3% a 3,5%. "Mas não é a trajetória que observamos", afirma. Combinado, o ritmo anualizado do segundo e do terceiro trimestres caminharia para 2%, ante 1,5% no primeiro trimestre. "Não é uma grande melhora", afirma o economista. O Rabobank estima expansão de 1,4% para o PIB neste ano e de 2,1% no ano que vem.
Na outra ponta das projeções, a 4E Consultoria estima crescimento de 0,4% no terceiro em relação ao período de abril a junho. A casa revisou a projeção inicial, de 0,6%, depois que varejo e indústria tiveram em setembro resultados surpreendentemente negativos. Para o economista Juan Jensen, sócio da consultoria, a atividade mostrou no período que não ganhou tração, passada a paralisação.
No terceiro trimestre, a indústria e a construção civil patinaram. O consumo das famílias deve ter ido melhor, enquanto os investimentos cresceram, mas sem recuperar a forte queda anterior. "O efeito-base não foi tão positivo. Há uma retomada da indústria de transformação com alta de 0 5% depois de queda de 0,6%, mas a extrativa teve perdas em razão da paralisação de plataformas de petróleo", diz Jensen. A consultoria também prevê queda de 1,2% no PIB agropecuário e aumento de 0,5% nos serviços. A recuperação muito gradual, afirma o economista, está muito associada às incertezas do período pré-eleitoral, que inibiu investimentos.
Para Vagner Alves, economista da Mogno Capital, o PIB do período, que deve crescer 0,8%, representará uma correção de rota em relação aos solavancos causados pela paralisação de maio. Naquele momento, que ainda teve uma piora das condições financeiras, a Mogno chegou a calcular que a atividade cresceria apenas 0,8% neste ano. Gradualmente, a diminuição das incertezas eleitorais e uma "melhora geral na confiança" fizeram a gestora de investimentos revisar para cima a sua projeção para o PIB de 2018, atualmente em 1,3%.
O resultado deve ter, de acordo com Alves, o consumo das famílias - ajudado pela liberação dos recursos do PIS/Pasesp - e os investimentos como destaques do lado da demanda. Ele lembra que a Formação Bruta de Capital Fico (FBCF), medida do que se investe em máquinas, equipamentos, pesquisa e desenvolvimento, vinha crescendo na margem desde o segundo trimestre do ano passado. Ainda assim, seguia em um patamar "muito baixo", dada a longa sequência de quedas anteriores.
Para agravar a situação, a paralisação dos caminhoneiros causou um novo tombo da FBCF no segundo trimestre. "Então, é natural alguma recuperação", diz. Do lado da oferta, serviços, que no PIB inclui o comércio, também deve ter ajuda da recuperação cíclica da economia.
A baixa base de comparação e a liberação do PIS/Pasesp também são destacadas pela economista-chefe da Rosenberg Associados, Thais Zara. Ela calcula um crescimento de 0,7% do PIB em relação ao segundo trimestre. Do lado da oferta, esses fatores devem ajudar os serviços a crescer 1,3% em relação ao terceiro trimestre de 2017, com destaque para os transportes. No segundo trimestre, o PIB do segmento de transporte, armazenagem e correio caiu 1,4%.
Thais lembra ainda de mudanças metodológicas recentes na contabilização da importação de plataformas de petróleo, que podem elevar os investimentos. A estimativa da Rosenberg para a FBCF é de alta de 6,2% em relação ao mesmo período de 2017.
Para José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos, a economia está voltando relativamente rápido, "o que é uma surpresa". Ele prevê alta de 0,6% no PIB do terceiro trimestre sobre o segundo Do lado da oferta, o PIB da indústria ainda mostrou algum resquício da paralisação e por isso deve cair 0,2%, após queda de 0,6% nos três meses anteriores. Segundo Camargo, o setor industrial depende diretamente dos transportes para fazer entregas e exportações e, por isso, é normal que os efeitos da greve tenham demorado mais para se dissipar, diferentemente dos serviços.
Nos cálculos da gestora, a alta dos serviços acelerou de 0,3% para 0,6% do segundo para o terceiro trimestres. A massa salarial, ainda que em ritmo lento, está crescendo, assim como a queda da taxa de desemprego, que ocorre em velocidade igualmente morosa, mas está em curso. "É um pouco o que está garantindo a alta de 1,5% prevista para o PIB no ano."
Em sentido contrário, o setor agropecuário deve ser o único a perder força no período, ao recuar 0,5% nos três meses encerrados em setembro, após ter ficado estagnado no segundo trimestre. A piora é sazonal, já que as principais safras se concentram no começo do ano, diz.
Pela ótica da demanda, o destaque no terceiro trimestre deve ser os investimentos, que nas contas da Genial avançaram 1% de julho a setembro, vindo de tombo de 1,8% nos três meses anteriores. Para Camargo, apenas parte do bom desempenho esperado entre julho e setembro é explicada pelas mudanças no regime de tributação especial Repetro, que impulsionou as importações de plataformas de petróleo no período, elevando também o consumo doméstico de bens de capital. "A alta também reflete o fato de que a economia está crescendo, pouco, mas está. E os investimentos estão começando a reagir", afirmou o economista.
Outra contribuição positiva veio do setor externo. A Genial estima que as exportações de bens e serviços aumentaram 6%, enquanto as importações subiram 3%. Assim, o efeito líquido sobre o PIB no período seria de alta. Para Camargo, a tensão comercial entre Estados Unidos e China beneficiou o Brasil, que elevou as vendas externas para o país asiático.
O desempenho mais fraco pelo lado da demanda no terceiro trimestre deve ser registrado pelos gastos do governo, que tiveram crescimento nulo no período, calcula Camargo. "Existe um esforço para fazer ajuste fiscal pelo lado dos gastos e isso se reflete no PIB.
Fonte: Valor - Macroeconomia, por Ana Conceição, Arícia Martins e Estevão Taiar , 26/11/2018

