Agentes da Polícia Federal no Amazonas fizeram na semana passada uma operação que flagrou um grande carregamento de toras de madeira nobre que estava sendo transportado por uma balsa pelo Rio Mamuru. “Nós descobrimos qual era a rota e mandamos uma mega embarcação nossa para fechar o Rio Mamuru. A área que tinha sido desmatada é no Pará, mas eles são obrigados a passar pelo Amazonas", contou ao Valor o superintendente da Polícia Federal no Amazonas, o delegado Alexandre Saraiva.

Apreensão de toras de madeira ilegal feita por agentes da Polícia Federal no Rio Mamuru, no Amazonas — Foto: Divulgação
A madeira, num total de 3 mil metros cúbicos, seria ainda processada, transformada em chapas, vigas e pranchões antes de ser vendida para clientes no Brasil e no exterior. A parte de melhor qualidade e mais cara, para clientes estrangeiros, segundo o delegado. Somente nos últimos dias, a PF no Amazonas apreendeu um total aproximado de 10 mil metros cúbicos, com base em investigações que tiveram como ponto de partida imagens de satélite fornecidas pela empresa americana Planet.
O governo federal firmou recentemente um contrato de R$ 45 milhões com a Planet, que suscitou inicialmente questionamentos, uma vez que o Brasil já dispõe de dados fornecidos por outros satélites, como os usados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A PF afirma, no entanto, que a abrangência, a frequência e a definição das imagens fornecidas pela empresa americana são mais apropriadas para o trabalho policial.
Saraiva diz que não apenas o Amazonas, mas também a PF de Roraima, Rondônia, Pará entre outros Estados do Norte já têm acessado as imagens fornecidas pela Planet. Os primeiros contratos pilotos com a empresa começaram em 2018 com a superintendência da PF no Amazonas.
Segundo o delegado, além de detectar com muito mais precisão áreas sendo desmatadas e o transporte da madeira ilegal, o sistema tem permitido também que a PF faça uma varredura nos processos administrativos que são fraudadas para esquentar madeira da Amazônia.
A engrenagem é bem conhecida pelas autoridades na região. Para dar um ar de legalidade à madeira extraída em áreas não autorizadas, criminosos solicitam aos órgãos estaduais ambientais documentos de origem florestal (DOF). É um documento emitido para projetos de manejo florestal ou para supressão de árvores de uma parcela da área para instalação de um empreendimento agrícola ou pecuária. Saraiva afirma, contudo, que na prática criminosos obtêm esses documentos de origem florestal não para criar gado nem para plantar soja, mas apenas para esquentar madeira cortada de áreas ilegais.
“Praticamente não há desmatamento se não houver fraude nos processos administrativos que embasam a emissão do documento de origem florestal. Isso é uma premissa”, afirma Saraiva. A dificuldade das autoridades, segundo o delegado, sempre foi a falta de servidores em número suficiente capaz de averiguar em cada área amazônica se as árvores cortadas deram de fato lugar à soja ou a gado ou se, de fato, aquelas toras foram extraídas de uma área autorizada. “Antes não tinha como a gente olhar. Agora, com essas imagens dos satélites da Planet vemos que a área (onde foi emitida o DOF) está intacta”, diz Saraiva. “Eu posso mostrar que dali ele não tirou madeira.”
No Amazonas, de 120 processos administrativos aguardando aval do órgão estadual, 61 foram derrubados com base nas imagens da Planet, segundo a PF. “É uma organização criminosa com tentáculos em todas as esferas. Existem madeireiros ilegais na Amazônia que são egressos do tráfico de drogas, são mafiosos. É um negócio que dá muito dinheiro.” Mas, acrescenta ele: pela primeira vez, esses grupos estão tendo seus negócios postos sob uma pressão maia efetiva. “Quando vim para a Amazônia há 10 anos, vim achando que eu iria acabar com isso, ou atrapalhar ao máximo, mas agora, com essas novas tecnologias, a gente têm realmente a possibilidade de ganhar, de reverter, e pela primeira vez os madeireiros estão preocupados, estão correndo atrás.”
Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Marcos de Moura e Souza - de São Paulo, 23/11/2020

