Com as carteiras de obras mais magras do que nunca, empreiteiras investigadas na Lava-Jato avaliam que já fizeram a lição de casa e defendem medidas para a retomada da construção pesada, mergulhada em seu pior momento e sem perspectiva de recuperação a curto prazo. Segundo as empresas, isso depende mais da reativação econômica e priorização de investimentos públicos e privados em infraestrutura do que delas próprias.

"Empresas que já assumiram responsabilidade no processo, negociaram acordos de leniência, viraram a página e endereçaram uma agenda de negócios de transparência, ética e integridade merecem por parte da sociedade e clientes um apoio para retomada das operações", disse Fábio Januário, presidente da divisão de infraestrutura da Odebrecht Engenharia e Construção (OEC). A carteira de contratos da OEC é hoje de US$ 15 bilhões, menos da metade do que era no fim de 2014, primeiro ano da Lava-Jato e quando a crise econômica se acirrou.

Na Andrade Gutierrez Engenharia, a queda do número de empregos diretos de 44 mil em 2014 para 7 mil dá a dimensão do drama. E dos onze contratos que a Galvão Engenharia tem hoje, cinco estão parados por falta de repasse dos clientes, todos públicos. "Em 40 anos nesse setor não vi nada parecido", disse Paulo Coutinho, diretor de projetos do grupo Galvão.

Além da Lava-Jato, a penúria fiscal minguou o espaço no orçamento de União e Estados para as obras públicas, principal mercado das empreiteiras. O resultado é que de setembro de 2014 a setembro de 2017 houve uma queda de 39% das vagas na construção pesada: sumiram do mapa 433 mil empregos formais. O nível de emprego recuou dez anos. É o maior tombo da história em um triênio numa área vital para a economia que influencia outros 62 segmentos.

"A construção pesada representa quase 25% da formação bruta de capital fixo do Brasil. Se não houver recuperação do setor, o resto do PIB não vai avançar de modo sustentável", disse Evaristo Pinheiro, presidente do Sindicato Nacional da Indústria da Construção Pesada - Infraestrutura (Sinicon), que reúne 450 empresas e fez o levantamento.

Os dados mostram que em setembro houve contratação, mas o Sinicon ainda não enxerga uma tendência de recuperação. "Pode ser um leve pico para finalizar uma obra. Ainda não observamos o ponto de inflexão, é o único setor que continua demitindo", disse Pinheiro. O lado positivo é que a indústria não perdeu massa crítica e numa eventual retomada a mobilização tende a ser rápida.

Para Januário, da OEC, a forma mais rápida de reparar os danos do passado não é só com pagamento de multas. "É preciso uma agenda de retomada, de geração de emprego, para dar cobertura a essa grande parte da população que ficou desprotegida nesse processo." 

A AG Engenharia classifica o mercado de construção pesada no Brasil como "letárgico", sofrendo ainda reflexos da crise. "As coisas não vêm acontecendo na velocidade que gostaríamos", afirmou o presidente da empresa Clorivaldo Bisinoto.

A companhia, no entanto, enxerga uma demanda reprimida por obras de infraestrutura "de centenas de bilhões de reais". E, como as demais empresas do segmento, avalia que o governo deve conceder esses empreendimentos à iniciativa privada.

"A demanda é muito grande em todas as áreas de infraestrutura, em logística principalmente. O governo, colocando isso de uma forma estruturada, poderia investir muito pouco e abrir, conceder, para a iniciativa privada fazer e, claro, dar a segurança necessária para os contratos", sustentou Bisinoto.

Mas só investimentos privados não vão alavancar a construção pesada, defende o Sinicon. De acordo com Pinheiro, apesar de essenciais, não se pode ter a "ilusão" de que somente com o Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) e investimento privado em infraestrutura o Brasil vai retomar o que
era. "Não há lugar no mundo onde infraestrutura não seja feita com investimento público, estatal", disse. E esses desembolsos vêm caindo.

Pinheiro compara que o orçamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para infraestrutura em 2014 era de R$ 70 bilhões e que neste exercício o orçamento do PAC infraestrutura transferido para o programa Avançar tem "apenas R$ 25 bilhões. É uma redução de 64%." No caso das estatais, a execução de investimento das empresas até o segundo trimestre foi de R$ 23,6 bilhões, 25,8% do previsto para ano. Percentual de execução mais baixo desde 2000.

"Se todas as obras do PPI estivessem em curso hoje, o que não é verdade, seriam mais ou menos R$ 32 bilhões em obras. Com 25 bilhões do PAC e mais quase R$ 25 bilhões das estatais, seriam R$ 82 bilhões no total", disse Pinheiro. Muito abaixo do valor considerado ideal para infraestrutura, equivalente a 5% do PIB. "Seriam necessários R$ 300 bilhões por ano para que o país avançasse em serviços de infraestrutura ou R$ 200 bilhões apenas para manter a infraestrutura do jeito que está", comparou.

A secura de obras públicas atinge a indústria de forma horizontal. A construtora Novatec, empresa de porte médio de Pernambuco que trabalha prioritariamente para o poder público, encolheu nos últimos anos com a escassez de clientes. Reduziu o quadro de funcionários em 70% desde 2016, para atuais 350 vagas diretas, e o faturamento hoje gira na casa dos R$ 60 milhões. "Já foi quase quatro vezes isso", disse o diretor técnico, Fernando Teixeira. Para ele, uma medida que poderia ajudar é a atualização das tabelas de referência dos preços nas licitações. "O mercado está recessivo, mas as obras que aparecem não geram tanto interesse porque os preços são irreais. As referências de preços nas licitações são muito baixas. Com a Lava-Jato, os órgãos de controle ficaram muito assombrados e não fazem a correção", disse Teixeira.


Fonte: Valor - Empresas, por Fernanda Pires e Rodrigo Polito, 22/11/2017