Os alimentos não são mais os únicos vilões da inflação - ganharam a companhia dos bens industriais. Responsáveis por 30,7% do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), os bens comercializáveis (que reúnem a maior parte dos produtos alimentícios e os itens industriais) deixaram assim de ser uma âncora inflacionária e subiram 7,6% nos 12 meses encerrados em outubro. É o maior nível do grupo nessa medida desde outubro de 2016 (8,47%), que agora está bastante acima do IPCA anual, atualmente em 3,92%.
O conjunto de “tradables”, como também são chamados os comercializáveis, reúne itens que sofrem competição externa e, por isso, são afetados pela cotação do dólar. Nele, há muitos alimentos, como arroz e carnes, que foram os vetores do repique inflacionário em um primeiro momento, mas a maior parte de seus componentes são bens industriais, cuja alta ainda está longe da inflação total, mas voltou a ganhar ímpeto nos últimos meses.

Depois de atingirem o piso de -0,03% nos 12 meses até maio, os produtos industriais aumentaram 1,98% no ano terminado em outubro, vindo de 1,29% em setembro. “Esse nível está longe de ser historicamente forte. Contudo, chamam a atenção a velocidade de recomposição destes preços no varejo e a avalanche de custos representada pelos preços industriais no atacado”, afirmou Fabio Romão, economista da LCA Consultores, referindo-se ao salto de 22,5% previsto para a inflação de itens industriais ao produtor em 2020. Essa é a projeção da consultoria para o Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA) industrial, da FGV.
Segundo economistas, os preços industriais e, consequentemente, os comercializáveis, devem seguir em patamar elevado ao menos até meados de 2021, mesmo que haja alguma valorização do câmbio, e impõem risco de alta nas estimativas para o IPCA do próximo ano. Atualmente, o consenso de mercado prevê que o indicador oficial de inflação vai subir 3,17% no ano que vem, mas já há projeções mais próximas da meta para o período, de 3,75%.
Economista-chefe do Barclays para Brasil, Roberto Secemski observa que, do avanço de 2,2% registrado pelo IPCA de janeiro a outubro, os bens comercializáveis responderam por 1,43 ponto percentual, ou 65% da “inflação cheia” do período. Para Secemski, a aceleração desses itens é explicada pela forte depreciação do real em relação à moeda americana, e pela demanda externa mais firme por commodities.
Os núcleos (medidas que excluem ou diminuem o impacto de preços voláteis sobre o IPCA) ainda não mostram pressões significativas da demanda doméstica, pondera o economista, mas a reabertura econômica e o repasse de aumentos significativos que continuam ocorrendo no atacado já provocaram alguma reação também nessas medidas.
Na passagem de setembro para outubro, nota Secemski, a média de cinco núcleos avançou de 0,28% para 0,51%, o que reflete, segundo ele, o impacto de “gargalos” na produção de bens, causados por interrupções relacionadas à pandemia. “Os preços industriais devem continuar pressionados no curto prazo”, avalia.
Para Romão, da LCA, o descasamento entre oferta e demanda em várias categorias de matérias-primas e de bens intermediários é algo pontual, mas sinaliza que não haverá alívio da inflação de bens industriais ao consumidor tão cedo. Em seus cálculos, esses itens devem ficar praticamente no mesmo nível dentro do IPCA em 2020 e 2021, com alta de 2,2% e 2,4%, respectivamente, mesmo com expressiva descompressão do IPA industrial na passagem anual, de 22,5% para 4,2%.
Além da desvalorização cambial, a pandemia também contribuiu para acelerar a inflação de bens industriais ao consumidor em duas frentes, acrescenta Vitor Vidal, economista da XP Investimentos. Com a cautela em relação à covid-19 e restrições ao funcionamento de vários setores, o consumo das famílias migrou dos serviços para os bens. Já nas camadas mais vulneráveis da população, o auxílio emergencial aumentou a demanda por bens duráveis e semiduráveis, diz ele.
Um mercado de trabalho fragilizado e o fim dos auxílios do governo representam fatores de contenção à alta desses preços no ano que vem, assim como uma leve apreciação do câmbio, aponta Romão. No cenário da LCA, o dólar deve terminar 2021 em R$ 4,80, ante R$ 5,20 ao fim deste ano. “Algumas coisas podem contribuir para mitigar reajustes, mas tem um avalanche de custos no atacado e parte desse repasse ficará para 2021”, ressalta Romão, o que coloca viés de alta em sua projeção para o aumento do IPCA em 2021, de 3,6%.
A inflação no atacado tem canal de repasse mais evidente no varejo através dos preços de alimentos, avalia Thiago Pereira, economista-chefe da Macro Capital, para quem a correlação entre os preços industriais no IPA e no IPCA não é tão forte. Mesmo assim, ele concorda com a percepção de que bens industrializados pressionarão a inflação no varejo ao menos até o primeiro semestre de 2021.
“Há muito tempo vemos compressão de margens na indústria e agora o setor está aproveitando para recuperar um pouco as perdas. Não imaginávamos isso um tempo atrás, mas a demanda tem permitido esses repasses”, nota o economista, que considera a escassez de insumos industriais ao fim deste ano como um risco de alta para a inflação no ano seguinte. Por ora, a gestora de recursos trabalha com aumento de 3,2% para o IPCA em 2021.
Vidal, da XP, vê a alta de bens comercializáveis e industriais como um choque temporário e não como o início de um ciclo inflacionário, mas pondera que, a depender da evolução do impasse fiscal, existe o risco de uma espiral inflacionária, deflagrada por desvalorização adicional do real. “Se o governo não der sinalização coerente de que vai corrigir as distorções fiscais, os mercados vão cobrar seu preço e o primeiro ativo que sofre é o câmbio.”
Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Arícia Martins - de São Paulo, 20/11/2020

