Primeiro item do plano de governo de Guilherme Boulos para a moradia, o mutirão popular proposto pelo candidato do Psol “não funciona” e “está longe de ser uma solução para a habitação em São Paulo”, afirma o presidente do Sindicato da Habitação (Secovi-SP), Basilio Jafet.

Em entrevista ao Valor, Jafet ressalta que a entidade não tem reserva ao candidato do Psol ou a qualquer outro por ser “totalmente apartidária”. Ele diz que tem interesse em abrir um canal de interlocução com Boulos “mesmo que ele não seja eleito”. No entanto, o presidente do Secovi é categórico ao afirmar que a ideia de resgatar os mutirões populares, iniciada na gestão da ex-prefeita e candidata a vice de Boulos, Luiza Erundina, é ineficaz.

“Os mutirões, no nosso entender, não funcionam. É muito difícil o controle, é muito difícil a otimização dos serviços”, afirma.

Jafet considera que a ausência de base técnica inviabiliza a ideia.

“É complicado edificar, construir através de pessoas que não necessariamente tenham qualificação técnica para isso. E muito provavelmente os preços que essas pessoas vão conseguir na compra de materiais e na execução de mão de obra não serão os melhores”.

Segundo Jafet, parte das unidades construídas na gestão de Luiza Erundina “foi feita de maneira desordenada e hoje está em situação bastante precária”. Mas ele garante que o Secovi tem pontos de convergência com as propostas de Boulos.

“Só que talvez a maneira de fazer, para ele, seja por mutirões enquanto nós entendemos que deve ser pela economia formal. Será que nesse trabalho de mutirões os impostos são recolhidos? Eu não sei dizer”, afirma Jafet.

“Eu sei que nós recolhemos, então nós contribuímos para a melhoria da cidade, para o superávit fiscal da cidade e o fazemos de maneira ordenada, empreendimentos devidamente aprovados”.

O presidente do Secovi-SP diz que o déficit de moradia popular em São Paulo pode ser resolvido com parceria do governo e a iniciativa privada. Ele cita como exemplo de iniciativa bem-sucedida o programa Casa Verde e Amarela, lançado em 2020 por Jair Bolsonaro em substituição ao Minha Casa Minha Vida.

Jafet diz que foram construídas 32,4 mil unidades de moradia popular em 2019 e 16,3 mil até outubro deste ano. “O déficit está sendo atacado e temos boas perspectivas”, acredita.

O presidente do Secovi faz uma crítica ao plano diretor da cidade, aprovado em 2014 durante a gestão de Fernando Haddad (PT), que na avaliação dele dificulta o avanço da construção na faixa das moradias econômicas. Ele também critica a atual gestão de Bruno Covas (PSDB), que busca a reeleição.

“Fizemos uma série de sugestões para a gestão atual, mas muito pouco foi implementado. Temos esperança de que nos próximos quatro anos surja a chance de se fazer a revisão do plano diretor”.

Na avaliação de Jafet, o plano diretor e a atual legislação impedem a realização do ‘retrofit’ - processo de modernização de edificações ultrapassadass ou fora de norma.

“Somos totalmente favoráveis ao ‘retrofit’ no centro. São Paulo está muito atrasada nisso”, afirma o presidente do Secovi.

“ Se você quiser fazer um ‘retrofit’ hoje, vai ter de adequar o prédio com antecâmara, com caixa de escadas nas medidas atuais. Como é que você faz isso, cara-pálida, num prédio de 50 anos, de 80 anos? Não faz, só demolindo. E aí os prédios ficam abandonados”.

Jafet crê que o histórico de líder de movimento sem teto de Boulos seja parte do passado.

“Entendemos que seja quem for o prefeito, tem de obedecer a lei. Então se ele falou ou praticou atos como representante de movimento, é muito diferente ao assumir a gestão de uma cidade. Queremos crer que [se eleito] ele vai obedecer a legislação.”


Fonte: Valor Econômico - Política, por André Guilherme Vieira - de São Paulo, 20/11/2020