A indicação de que o Banco Central pode ajudar a reduzir a pressão sobre o câmbio no final do ano, vinda de ajuste às necessidades de hedge dos bancos para investimentos no exterior, ajudou o real a ter o melhor desempenho entre as principais divisas do mundo no pregão de ontem.

A moeda americana terminou o dia em queda de 1,99%, negociada a R$ 5,33. Ajudado pelo movimento do câmbio, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 recuou de 3,29% no ajuste anterior para 3,24%, enquanto a do DI para janeiro de 2025 passou de 6,69% para 6,65%.

Na segunda-feira, após o fechamento dos mercados, o BC anunciou a rolagem dos contratos de swap cambial com vencimento em janeiro, que somam US$ 11,8 bilhões. O texto, no entanto, deixou aberta a possibilidade de recalibrar o montante ofertado, “conforme as condições de mercado”.

Para observadores, a mudança na redação em relação a comunicados anteriores tinha como objetivo passar uma mensagem de que o Banco Central não irá deixar “solto” o fluxo esperado por causa da mudança na legislação do chamado “overhedge” dos bancos - uma proteção adicional que as grandes instituições financeiras mantêm para seus investimentos no exterior. Segundo estimativas de mercado, o desmonte dessas posições deve acarretar em uma compra de cerca de US$ 15 bilhões no mercado futuro de câmbio.

“É importante notar que o BC já tem discricionaridade para ofertar swaps quando achar necessário. Então, embora não tenha feito nenhuma menção explícita ao ‘overhedge’, explicitar isso justamente em um momento em que o mercado está mais calmo, a interpretação mais plausível é que o BC fará colocações líquidas de swaps caso a reversão do overhedge gere distorções”, diz o analista independente da Ohmresearch e ex-chefe do Departamento de Mercado Aberto do BC, Sergio Goldenstein. “O comunicado, portanto, busca reduzir a incerteza do mercado, o que tende a acalmar a moeda.”

O profissional observa que os participantes do mercado já esperavam algo nesse sentido desde que o diretor de política econômica da instituição, Fabio Kanczuk, admitiu essa possibilidade em um evento fechado do Itaú, semanas atrás. Após a fala, no entanto, o BC soltou uma nota de esclarecimento informando que só comunicaria mudanças de atuação pelos canais oficiais. O anúncio da segunda-feira foi, portanto, uma maneira de oficializar essa possibilidade.

O aceno do BC é importante porque esses US$ 15 bilhões são um volume expressivo para o tamanho do mercado local, principalmente no fim do ano, quando a liquidez é reduzida e qualquer ordem de compra ou venda maior costuma ter efeito amplificado sobre a formação de preços. Segundo o sócio e gestor da Armor Capital, Alfredo Menezes, a maior parte dessa compra deve se dar justamente no dia 30 de dezembro. Isto porque, se os bancos decidirem reduzir essa posição antes do fim do ano, deixam seus ativos no exterior expostos ao risco cambial.

Em seus cálculos, essas instituições devem realizar uma compra de US$ 15,5 bilhões apenas para se adequar às novas regras tributárias. No entanto, caso decidam reduzir seu patrimônio no exterior, como ocorreu no segundo trimestre, esse volume pode chegar a US$ 23 bilhões.

O montante que o Banco Central precisará ofertar para limitar uma distorção nos preços, por outro lado, depende de uma série de variáveis. “Por um lado, existe o fluxo sazonal negativo no fim do ano, que pode levar o BC a ofertar inclusive moeda à vista, para além da necessidade trazida pelo ‘overhedge’. Por outro, o próprio mercado pode prover parte desses dólares no mercado futuro”, diz. “Recentemente, temos visto uma entrada mais firme do estrangeiro na bolsa brasileira. Além disso, os fundos locais estão comprados [apostando na alta do dólar] em cerca de US$ 12 bilhões neste momento, possivelmente para se defender do efeito do ‘overhedge’ no fim de dezembro. Com a sinalização do BC, eles podem querer se desfazer de parte dessas posições.”


Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Marcelo Osakabe e Victor Rezende - de São Paulo, 18/11/2020