Na situação excepcional em que a pandemia colocou o país, com elevado déficit público e necessidade de recursos para saúde e também para um novo programa de transferência de renda, o economista Raul Velloso defende a emissão de moeda. Não há, diz ele, por que financiar tudo com a emissão de títulos. Ele também critica os que defendem a manutenção do teto de gastos e aponta a necessidade de investimentos do setor público como forma de retomada econômica no pós-crise.

“A emissão de moeda é uma dívida que não paga juros e pode se dar sem impacto inflacionário”, disse ele em Live do Valor transmitida ontem. Seria uma grande “besteira”, diz ele, se comportar numa crise dessa dimensão como se estivéssemos numa situação normal. Em relação a uma eventual reação negativa do mercado, sobre emissão de moedas, Velloso diz que o governo fracassa ao não saber se comunicar.

“Não creio que eles tenham uma visão tão equivocada assim a esse ponto.” Doutor em economia pela universidade americana de Yale, Velloso diz que é isso (emissão de moeda) que outros países estão fazendo. ‘Por que temos que ser diferentes, fazer as soluções mais difíceis e complicadas?”

Para ele o caminho não é conseguir recursos com mudança nos impostos. A reforma tributária, diz, não é para o momento atual. Ela só se justificaria, defende, numa situação de falta de dinheiro ou com objetivo de recuperar competitividade. “O problema na pandemia não é falta de dinheiro. Dinheiro, se precisar, basta o governo ter coragem e emitir moeda”, insiste o ex-secretário nacional adjunto do antigo Ministério do Planejamento.

Para o economista a emissão de moeda pode propiciar recursos para hospitais e para um programa de renda emergencial. Ao fim da pandemia, com vacina e um cenário de volta à “normalidade, talvez em algum momento do segundo semestre do ano que vem”, diz ele, o país deverá ter uma determinada relação de dívida/PIB. Mais que o número dessa relação, diz ele, o importante é sua trajetória. A partir desse momento, ressalta, essa razão não deveria crescer mais. Isso, diz, não será difícil caso as taxas de juros continuem baixas e a economia cresça um pouco.

Nesse cenário, avalia, os investimentos serão necessários para promoção do crescimento. “É preciso investir um pouco, pelo menos. E só o setor público poderá liderar esse processo.” A União, aponta, precisa fazer isso e tem a capacidade de emitir moeda. Nos Estados e municípios, indica, é preciso atacar o déficit previdenciário e assim abrir espaço para investimento pelos governos subnacionais. Ao mesmo tempo, diz, é preciso garantir maior segurança jurídica a investidores privados.

O teto de gastos, que “nasceu morto”, declara, não deve ser um entrave. “Na hora em que se fixa um teto geral que não vale para mais 90% do Orçamento, como ele vai durar?”, questiona. O teto, diz, virou ícone de “certo segmento de economistas” e do mercado financeiro, que defendem que “ou temos o teto ou estamos perdidos”. “Isso é uma grande bobagem.”

Ao avaliar a equipe econômica, Velloso diz que o governo tem feito parte do que é preciso durante a pandemia, mas aos “trancos e barrancos”, empurrado pelo Congresso e pela sociedade. Sobre o ministro da Economia, Paulo Guedes, Velloso diz que falta experiência. “A pessoa pode ser mais velha, mas tem experiência zero” no cargo. A sensação, diz, é de que o governo está sempre “atrás do seu tempo”.

Um programa de renda emergencial, defende, é algo que tem que ser feito “sem achar que o Brasil pode acabar”. O governo inicialmente achou que isso poderia ser resolvido com “migalhas”, avalia, mas “felizmente o Congresso atuou” e foram definidos os R$ 600 ao mês de auxílio emergencial, que, desde setembro, foi reduzido a R$ 300 mensais. “Achar que vamos ter auxílio de R$ 300 até dezembro e passar a zero no ano que vem com a pandemia a todo vapor, com segunda onda talvez chegando e com a vacina indefinida é uma ingenuidade política grande. Não consigo imaginar que o presidente da República e seus principais apoiadores vão engolir essa.”


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Marta Watanabe - de São Paulo, 18/11/2020