A presidente Dilma Rousseff anunciou neste domingo, 16, que o governo fará um ajuste econômico que cortará gastos sem, no entanto, cortar a demanda.
"Nem todos os ajustes são pelo lado de cortar a demanda. Você tem no Brasil um conjunto de gastos e de despesas que não levam necessariamente à ampliação do investimento nem à ampliação do consumo", afirmou Dilma.
A declaração foi dada durante entrevista coletiva em Brisbane, na Austrália, logo após o almoço de trabalho que serviu de encerramento para a cúpula do G20, o grupo das 20 principais economias do mundo.
Em seu comunicado final, o grupo anunciou que a economia mundial poderá engordar US$ 2 trilhões até 2018, se funcionarem as iniciativas de crescimento contidas no documento, como antecipado pela Folha.
A preservação da demanda –ou seu incremento– já havia sido tema da presidente Dilma quando ela analisou os resultados da cúpula.
A presidente considerou "importantes" os passos propostos para aumentar o crescimento da economia mundial em 2 pontos percentuais nos próximos cinco anos.
São medidas para "incrementar investimento, comércio e a competitividade, além de estimular o emprego", o que, em tese, "respaldaria o desenvolvimento e o crescimento inclusivo".
O pacote anunciado pelo G20 produzirá, se totalmente implementado, um crescimento de 2,1 ponto percentual, de acordo com análises do Fundo Monetário Internacional e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico.
Mas Dilma enfatizou que "é preciso atuar do lado da demanda". Por isso, seu ainda ministro da Fazenda, Guido Mantega, acha que as propostas "não são suficientes para dar uma sacudida na economia internacional".
Explica-se o ceticismo: para Mantega, a culpa do baixo crescimento do Brasil (admitido abertamente por Dilma, pouco antes) é do cenário internacional: a redução da demanda em países ricos, europeus principalmente, e na China provocou redução do comércio e atrapalhou a evolução econômica do Brasil.
Mantega também tratou genericamente dos ajustes que estão sendo preparados para recuperar a demanda e, com ela, o crescimento.
Deixou claro que se voltará ao programa de 2011, o primeiro ano do governo Dilma, em que um ajuste fiscal (corte de gastos ou aumento da receita) permitiu uma política monetária (juros) menos apertada.
Agora, o governo "não pretende fazer nenhuma desoneração", ou seja, não dará alívio tributário ao setor privado ao mesmo tempo em que fará cortes nos gastos.
Onde? Responde Dilma: "Em despesas que não levam à ampliação de investimento e consumo. E tem outras despesas que temos que olhar porque são excessivas" (Mantega acrescentou que são "despesas que estão crescendo mais do que o normal"). O ministro tem previsto cortes em benefícios como o seguro-desemprego, por exemplo.
A presidente desmentiu firmemente que esteja estudando o restabelecimento da Cide e negou-se a falar da reforma ministerial.
MARGEM PARA CORTES É REDUZIDA
Um dos poucos cortes que não afetam nem consumo nem investimento seria reduzir o pagamento de juros. O Banco Central, no entanto, acabou de aumentar a taxa básica de juros para controlar a inflação, que tem ultrapassado o teto da meta.
Outro corte que tem sido ventilado, em benefícios como seguro-desemprego e abono salarial, teria pouco impacto. Toda a rubrica respondeu por R$ 42,8 bilhões no acumulado de 12 meses até setembro, enquanto o rombo do governo no período foi de R$ 100 bilhões.
Fonte: Folha de São Paulo, por Clóvis Rossi, 17/11/2014

