Os serviços mantiveram a trajetória de retomada em setembro, mas em ritmo mais fraco que nos três meses anteriores. A gradual retirada do auxílio emergencial e fatores temporários, como inflação pressionada no curto prazo, devem diminuir a força de recuperação nos próximos meses. O setor está atrás da indústria e do varejo na recomposição das perdas com a pandemia de covid-19.

Apesar de subir 1,8% entre agosto e setembro, o volume de serviços ainda precisa subir 8,7% para voltar ao patamar de fevereiro, segundo o IBGE. Isso mesmo depois de quatro altas consecutivas e do aumento acumulado de 13,4% no período. De março a maio, o setor registrou recuo de 18,9%.

O movimento também é desigual entre as categorias do segmento, conforme a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS). Os serviços prestados às famílias, cujas atividades são prioritariamente presenciais e não essenciais, estão 43,8% distantes do pico da série, atingido em outubro de 2013. Precisam crescer 55,9% para chegar ao nível pré-crise. “Esse segmento pode ser impactado pela inflação de alimentos elevada, o que vai corroer o poder de compra e afetar os serviços de alimentação”, diz Maurício Nakahodo, economista sênior do banco MUFG Brasil.

“O fato de ser uma categoria mais ligada a serviços não essenciais, como hotéis e restaurantes, exige uma segurança sanitária maior para dar uma guinada mais forte”, diz Luana Miranda, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV). “É um categoria de emprega muita gente, impacta direto do PIB e é mais fácil de ser substituída.”

Até que uma vacina seja produzida e distribuída, os serviços seguirão na lanterna de outros setores, embora esse descompasso possa até ajudar na recomposição dos prejuízos da crise, nota a gestora Guide Investimentos. “A forte retomada da indústria e do setor varejista, por contratar uma série de atividades prestadas pelo setor de serviços, pode promover algum tipo de alívio, como vem sendo o caso da categoria de transportes”, afirma relatório da instituição.

Na leitura de setembro, destoou o resultado das atividades profissionais e administrativas, geralmente prestadas entre empresas, que caíram 0,6% no período, destaca Luana. O subsetor de serviços técnicos-profissionais puxou a queda, com 1,9%. “São os serviços que empresas prestam a outras empresas e exigem mão de obra mais qualificada, como advogados e engenheiros, e chamam a atenção pela fraqueza específica no mês”, afirma ela.

Apesar da fragilidade da volta, os serviços fecharam o terceiro trimestre com alta de 8,6% ante o segundo trimestre, quando houve recuo de 15,5% em relação aos três primeiros meses do ano. Nos cálculos do Goldman Sachs, isso implica um carrego estatístico de 2,2% para a última parte do ano - ou seja, essa será a taxa de crescimento dos serviços se a atividade do setor desacelerar para zero, improvável no cenário de hoje.

Para analistas, a alta de setembro, ainda que mais moderada que nos últimos meses, é condizente com a perspectiva de forte alta do PIB no terceiro trimestre. O Ibre estima expansão de 7,2% no PIB ante o segundo trimestre deste ano, feitos os ajustes sazonais. O MUFG Brasil deve alterar a projeção atual, de avanço de 6% do PIB no período, para algo em torno de 9% a 10%.

Após a divulgação da PMS, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) revisou de -5,9% para -6,4% a projeção para o setor de serviços no fechado de 2020. “A tendência é que as atividades terciárias sigam apresentando lenta reação até o fim de 2020 na medida em que as medidas de estímulo à economia adotadas no auge da pandemia tendam a produzir impactos menos significativos daqui para frente”, diz, em relatório, o economista Fabio Bentes, da CNC.

Segundo ele, o turismo é um dos grandes perdedores da crise. Até outubro, o setor perdeu R$ 280 bilhões em faturamento. “A crise de proporções inéditas enfrentada pelo turismo nos últimos meses levou o setor a registrar um saldo negativo de 49,9 mil de estabelecimentos com vínculos empregatícios somente no segundo trimestre deste ano, segundo pesquisa recente da CNC”, diz o relatório.


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Hugo Passarelli - São Paulo, 13/11/2020