As transações diárias feitas na fase de testes (“soft opening”) do sistema de pagamentos instantâneos Pix, capitaneado pelo Banco Central, já ultrapassaram R$ 50 milhões, o que é surpreendente, na avaliação do diretor de política de negócio e operações da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Leandro Vilain. “Eu achava que o primeiro dia [de operação integral] do Pix teria

R$ 50 milhões em transações, mas bateu isso na fase de teste, na última terça-feira. Já perdi a aposta”, disse ontem em Live do Valor.

Desde o dia 3, quando começou a fase restrita até a última quarta, essas transações atingiram 538,2 mil operações, no valor total de R$ 206,272 milhões. Somente na última quarta, foram realizadas mais de 216 mil operações no valor de R$ 85,757 milhões, segundo o Banco Central (BC). A etapa de testes acaba no domingo, dia 15. No dia seguinte, começa a operação integral do Pix. A fase de testes conta com a participação das 762 instituições autorizadas pelo BC a trabalhar com o Pix.

Segundo Vilain, o soft opening tem demonstrado que as instituições estão conseguindo resolver os problemas de forma adequada, em períodos que variam de 30 a 60 minutos.

Para Carlos Netto, presidente da empresa de tecnologia Matera, que também participou da live, esse resultado prévio da fase de teste — somado ao fato de haver mais de 700 instituições participantes — mostra que o Pix dará mais certo do que imaginavam. A Matera atua na integração de empresas ao sistema de pagamentos instantâneos.

O Pix conta hoje 29,058 milhões de pessoas físicas e 1,671 milhão de empresas cadastradas. O total de chaves — cada usuário pode cadastrar mais de uma — chega a 68,543 milhões. A principal chave escolhida pelos usuários é o CPF, com 25,062 milhões de unidades.

Um dos objetivos do Pix é diminuir o uso do dinheiro em espécie, cujo custo somente com transporte é da ordem de R$ 10 bilhões por ano para os bancos. “Cerca de 40% dos gastos das famílias são com dinheiro em espécie, nosso grande objetivo é cair para 25%”, disse Vilain.

Contudo, no curto prazo haverá ainda a possibilidade de realizar saques no varejo por meio do Pix. O representante da Matera comentou que essa opção deve entrar em vigor no primeiro trimestre de 2021.

Segundo ele, a operação é simples: o consumidor vai a uma loja em seu bairro, por exemplo, faz um Pix para o comerciante e recebe o dinheiro em espécie. Também é possível realizar uma compra com troco — o cliente faz uma compra de R$ 50, mas paga R$ 100 e recebe R$ 50 em dinheiro.

Netto explicou que isso já existe nos EUA, por meio de compras com cartão, e é positivo para ambas as partes. Para o cliente, que não precisa ir a um banco realizar um saque, e para o lojista, que economiza no manejo do dinheiro físico, diminui o risco em caso de assalto, e ainda vê o fluxo de clientes aumentar no seu comércio.

Ainda segundo o especialista, o valor cobrado pelo saque no Pix possivelmente será estabelecido livremente pelos comerciantes, mas, dadas as vantagens que eles obtêm, as discussões atuais sugerem que o valor deve ser irrisório ou até mesmo gratuito.

Vilain afirmou na live que os valores para transações pelo Pix serão definidos pelos bancos para cada cliente, que poderá solicitar uma redução quando bem desejar. Os limites máximos devem começar menores e serem elevados em fevereiro, quando os usuários já estiverem mais acostumados ao sistema.


Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Fernanda Bompan e Álvaro Campos - São Paulo, 12/11/2020